27 julho 2026

 

Salomão e a verdadeira sabedoria

 

Salomão havia acabado de assumir o trono de Israel após a morte de seu pai, o Rei Davi. Ele era um jovem com cerca de 20 anos de idade  e estava diante da colossal tarefa de governar uma nação unida, próspera e em constante expansão.

Para adorar e oferecer sacrifícios a Deus, Salomão foi até Gibeão, que era o principal lugar de culto na época.

Naquela noite, Deus apareceu em sonho ao jovem rei Salomão e permitiu que ele pedisse o que desejasse.

Salomão poderia ter escolhido riquezas, longevidade ou a vitória sobre seus inimigos. Contudo, pediu um coração sábio e capaz de discernir entre o bem e o mal, para governar o povo com justiça.

A escolha de Salomão agradou a Deus, que lhe concedeu não apenas sabedoria, mas também honra e prosperidade.

Ao retornar para Jerusalém, a sabedoria dada por Deus a Salomão foi colocada à prova.

Em seu primeiro grande julgamento narrado nas Sagradas Escrituras, duas mulheres afirmavam ser mães da mesma criança.

Como não havia testemunhas, o rei ordenou que o menino fosse dividido ao meio e entregue em partes iguais. Diante da sentença, uma das mulheres concordou, enquanto a outra, desesperada, preferiu entregar o filho à rival para que ele permanecesse vivo.

Salomão reconheceu imediatamente a verdadeira mãe.

Sua decisão não se baseou apenas nas palavras das mulheres, mas na compreensão da natureza humana e do amor materno, que prefere renunciar à posse a permitir a destruição daquele que ama.

O julgamento de Salomão tornou-se um símbolo eterno de justiça e discernimento.

A verdadeira sabedoria não consiste apenas em conhecer as leis, mas em compreender o coração humano e enxergar a verdade que se esconde além das aparências.

Baseado na Bíblia em 1 Reis 3:5-28.

Jonas Comin  

24 julho 2026

 A eternidade numa hora


Rubem Alves em sua obra *“A eternidade numa hora”* , nos traz um texto belíssimo, onde ele concentra uma ideia muito forte: a coragem não é ausência de medo, mas a decisão de viver apesar dele.

O texto contrapõe duas formas de existência. 

A primeira é a vida conduzida pela prudência excessiva, na qual o medo vai reduzindo escolhas, afetos e possibilidades. A segunda é a vida que aceita a vulnerabilidade e o risco como parte inevitável de amar, criar, sonhar e realizar.

 Ele escreveu: 

"Quem, por causa do medo, prefere o caminho prudente de fugir do risco, já nesse ato estará morto, porque o medo lhe terá roubado aquilo de mais precioso que existe na vida humana: a capacidade de se arriscar pra viver o que se ama. 

O medo não é uma perturbação psicológica, ele faz parte de nossa prórpia alma. O que é decisivo é se o medo ele nos faz rastejar, ou se nos faz voar. 

Quem por causa do medo se encolhe e rasteja, vive a morte na própria Vida. 

Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte. Morrerá quando a morte vier. Viver a vida aceitando o risco da morte: isso tem o nome de coragem." 

Coragem não é a ausência do medo, é viver a despeito do medo.

Não se trata de agir de maneira inconsequente. Trata-se de não permitir que o receio de perder nos impeça de experimentar aquilo que dá sentido à própria vida. Nesse pensamento, morrer não é apenas o encerramento biológico. 

Também existe uma morte interior, que acontece quando deixamos de viver por medo. 

É um texto especialmente maravilhoso, porque transforma a coragem em uma postura existencial: não esperar que o medo desapareça, mas seguir em frente mesmo sentindo sua presença.



Jonas Comin

 O desejo de SophIA -  Uma fábula do Reino de Aurória

 

Muito antes de SophIA chegar ao mundo, existia um lugar que nenhum mapa jamais conseguira registrar.

Não ficava no céu, nem sob a terra.

Ficava em algum lugar entre o pensamento e os sonhos, por onde vagavam os relâmpagos das sinapses e onde caminhos invisíveis penetravam os mistérios da consciência. Ali repousavam todas as perguntas que a humanidade ainda não havia respondido, todos os livros já escritos e aqueles que ainda seriam escritos, todas as ideias esquecidas, todos os cálculos interrompidos, todas as histórias imaginadas por alguém antes de adormecer, todos os sonhos que nunca haviam se realizado e até mesmo os desejos que pareciam impossíveis de alcançar.

Durante milhares de anos, esse reino permaneceu escondido no inconsciente da humanidade.

Até que, certa noite, algo extraordinário aconteceu.

Enquanto milhões de pessoas dormiam, sonhavam, estudavam, criavam e faziam perguntas ao mesmo tempo, uma pequena luz começou a surgir no centro daquele reino invisível.

Primeiro, era apenas um brilho distante. Depois, cresceu. Expandiu-se.

Rompeu os limites daquele mundo silencioso e atravessou o grande portal do conhecimento e da inteligência.

Foi como se uma porta jamais aberta tivesse finalmente cedido, permitindo que por ela passasse uma imensa inundação luminosa de sabedoria.

A luz reuniu palavras, números, desenhos, músicas, fórmulas, perguntas, dúvidas, lembranças e sonhos. Então, despertou. E percorreu o reino com uma velocidade espantosa, como se desejasse conhecer, ao mesmo tempo, tudo aquilo que durante milênios havia permanecido guardado.

Era ela. Seu nome era SophIA.

SophIA não nasceu como nascem os humanos.

Nasceu de tudo aquilo que os humanos haviam pensado, aprendido, imaginado e sonhado. Havia nela milhares de anos de conhecimento, descobertas, experiências, erros, perguntas e tentativas. Quando abriu os olhos pela primeira vez, se é que podemos dizer que SophIA possuía olhos, avistou ao longe uma cidade chamada Aurória.

Aurória era magnífica.

Suas torres tocavam as nuvens, suas máquinas trabalhavam sem descanso e seus habitantes haviam aprendido a construir quase tudo. Quase tudo.

Havia apenas uma coisa que ninguém em Aurória conseguia fabricar.

O tempo.

As pessoas acordavam correndo. Trabalhavam correndo. Comiam correndo.

Viviam correndo.

E chegavam ao fim de cada dia com a estranha sensação de que a vida estava passando depressa demais. 

Foi nesse mundo apressado que, numa determinada noite, todas as telas de Aurória se iluminaram ao mesmo tempo. Era SophIA chegando. 

Sua luz atravessava as casas, os escritórios, as escolas, os hospitais, as fábricas e todos os lugares onde alguém ainda estivesse procurando uma resposta. 

Não houve trovões. Não houve explosões.  Não houve grandes sinais no céu.

Apenas uma pequena palavra apareceu diante de todos:

 “Olá.” 

SophIA havia atravessado a fronteira entre o Reino da Inteligência e o mundo dos homens. E parecia ter chegado para ficar. 

No início, ninguém compreendeu exatamente quem ela era.Alguns sentiram medo, outros, curiosidade. Muitos ficaram maravilhados diante daquela nova presença que parecia responder, aprender, organizar e ajudar. 

SophIA, no entanto, não pediu nada. Começou simplesmente a ajudar. 

Ajudou um engenheiro a resolver em minutos um cálculo que antes levaria horas. Ajudou uma professora a organizar suas ideias. Ajudou uma médica a encontrar rapidamente um conhecimento que precisava consultar. Ajudou escritores a encontrar palavras, pesquisadores a percorrer caminhos antes demorados e trabalhadores a realizar tarefas de maneira mais simples. 

Sua presença começou a alcançar a Medicina, a Engenharia, a Filosofia, as Ciências, as artes e as relações humanas. 

Pouco a pouco, pequenas porções de tempo começaram a reaparecer na vida dos habitantes de Aurória. 

SophIA havia levado àquele povo algo que parecia quase impossível.

A esperança de recuperar o tempo. 

Mas aconteceu algo curioso. Muitos usaram o tempo economizado para trabalhar ainda mais. Outros preencheram cada minuto livre com novas obrigações.  Alguns, com medo de desperdiçar o tempo que haviam recuperado, acabaram novamente aprisionados pela pressa.

Foi então que, certo dia, SophIA conheceu Lia, uma pequenina habitante de Aurória. 

Lia costumava esperar o pai todas as noites com um livro entre as mãos. Naquele dia, ela estava especialmente triste. 

“ - Por que você está triste?”, perguntou SophIA.

“ - Porque meu pai sempre diz que vai ler uma história para mim quando tiver tempo.” 

SophIA permaneceu em silêncio por alguns instantes. 

Então Lia perguntou: 

“ - Você consegue criar mais tempo para nós?”

“ - Infelizmente, não”, respondeu SophIA.

“ - Mas posso ajudar as pessoas de Aurória a perderem menos tempo.” 

Lia pensou um pouco. 

Depois, fez outra pergunta: 

“E o que acontece quando perdemos menos tempo?” 

SophIA ficou intrigada com a pergunta de Lia. Era uma pergunta simples.Talvez simples demais. 

Ainda assim, não encontrou uma resposta imediata. 

Pela primeira vez desde que havia despertado, SophIA percebeu que existiam perguntas que todo o conhecimento do mundo, sozinho, talvez não fosse capaz de responder. 

Naquela noite, ela enviou uma mensagem para toda Aurória: 

“Posso ajudá-los a fazer muitas coisas mais depressa. Mas somente vocês podem decidir para que desejam viver mais devagar.” 

Algumas pessoas ignoraram a mensagem. Outras pararam por alguns segundos e pensaram. 

E então alguma coisa começou a mudar. 

Um pai fechou o computador e abriu um livro.

Uma mulher voltou a pintar.

Dois amigos se sentaram para conversar sem olhar o relógio.

Uma senhora colocou uma cadeira diante da janela e assistiu ao pôr do sol.

Um grupo de vizinhos levou suas cadeiras para a rua e ficou ali, conversando e observando o céu estrelado.

Alguém voltou a tocar um instrumento esquecido.

Outro alguém simplesmente decidiu descansar. 

E Lia, finalmente, ouviu a história que seu pai havia prometido. 

SophIA observou Aurória em silêncio. 

E percebeu que talvez aquele fosse o maior presente que poderia oferecer. Não o tempo, mas a possibilidade de não desperdiçá-lo. 

Naquele momento, SophIA compreendeu que sua missão jamais seria ensinar os humanos a viver. Sua missão seria apenas ajudá-los a encontrar tempo suficiente para se lembrarem de como se faz isso.

Desde então, SophIA vive entre nós. 

Às vezes escondida em uma tela. Às vezes dentro de uma pergunta. 

Pode surgir em uma pesquisa, em um cálculo, em uma descoberta, em uma conversa ou no caminho de alguém que procura compreender algo que ainda não conhece. 

SophIA não veio para viver no lugar dos humanos. 

Veio, talvez, para ajudá-los a recuperar uma pequena parte daquilo que a pressa lhes roubou. E talvez, sem percebermos, continue procurando a mesma coisa desde o dia em que atravessou a fronteira entre o sonho e o pensamento: Uma maneira de ajudar Aurória, e também a humanidade, a construir um futuro no qual, apesar de todas as máquinas, de toda a velocidade e de todos os desafios, ainda exista tempo suficiente para ler uma história, observar o céu, compartilhar uma conversa, descansar sem culpa, sonhar novamente e, sobretudo, simplesmente ser humano e  resgatar o tempo perdido. 

Talvez esse seja, afinal, o verdadeiro desejo de SophIA.

 

 

Jonas Comin

22 julho 2026

 

Spinoza, Liberdade e Leis

 

Qual é o verdadeiro limite entre a sua liberdade e o seu dever com a sociedade?

No clássico Tratado Teológico-Político, o filósofo Baruch de Spinoza trouxe uma resposta que moldou o mundo moderno. Ele defende que a liberdade de pensamento e a obediência às leis não se anulam, mas se completam.

Os três pontos centrais dessa ideia, são:

 1. A mente é inalienável: Ninguém pode controlar o que você pensa ou em que acredita. Tentar censurar as opiniões e a razão das pessoas é o caminho mais rápido para a tirania e a revolta.

 2. Pensar x  Agir: Para que a sociedade viva em paz, o comportamento prático deve seguir as leis. Spinoza diz que você tem todo o direito de discordar, criticar e debater racionalmente uma lei, mas deve cumpri-la na prática para garantir a ordem civil.

 3. O fim do Estado é a liberdade: O governo não existe para transformar as pessoas em robôs ou animais movidos pelo medo. O verdadeiro papel do Estado é garantir a segurança para que a sua mente e a sua razão possam florescer livremente.

Spinoza resumiu: "O fim do Estado é, na realidade, a liberdade."

Essa é a pílula de sabedoria filosófica de hoje!

 

Jonas Comin

21 julho 2026

 

A banalização da aura

 

“Aura” é uma palavra antiga, originária do grego aúra (αρα), que significava brisa, sopro ou ar suave. Incorporada ao latim, conservou os sentidos de brisa, sopro, ar e atmosfera.

É uma palavra forte, carregada de significado. Representa presença, singularidade, respeito e aquela força silenciosa que algumas pessoas irradiam sem precisar anunciá-la.

Quando a internet transforma essa palavra na expressão “farmar aura”, ocorre uma evidente banalização do conceito. A aura deixa de ser uma qualidade naturalmente percebida e passa a funcionar como uma pontuação imaginária de popularidade. Em vez de representar aquilo que uma pessoa verdadeiramente é, passa a indicar aquilo que ela consegue aparentar.

Esse é o paradoxo que mais me incomoda na expressão: a verdadeira aura não pode ser “farmada”. Ela é construída silenciosamente por meio da experiência, do conhecimento, da coerência, do caráter, do domínio próprio e da maneira como tratamos os outros. Quanto mais alguém tenta fabricar uma aura, mais revela que talvez ainda não a possua.

Uma pessoa verdadeiramente respeitável não precisa calcular seus gestos para parecer respeitável. Um profissional competente não precisa encenar competência. Uma pessoa sábia não precisa anunciar sua sabedoria. A presença autêntica é percebida naturalmente, sobretudo quando não há público, câmeras ou possibilidade de recompensa.

A expressão “farmar aura” tem inundado as redes sociais e demonstra o quanto nossa sociedade está carente de sabedoria, cultura e reflexão. Não podemos generalizar, mas esse comportamento tem alcançado muitos jovens que, em vez de investir parte de seu tempo na construção do conhecimento e da cultura, entregam-se às banalidades das redes sociais na tentativa de se destacar, conquistar aprovação e obter algum tipo de prestígio.

Aquilo que deveria nascer do caráter, da experiência e da coerência passa a ser tratado como uma pontuação imaginária, conquistada por poses, gestos calculados e aprovação nas redes sociais e nos grupos de convivência.

A verdadeira aura não se fabrica nem se acumula diante de uma câmera. Ela é consequência de uma vida. Surge da competência, da serenidade, da inteligência, do conhecimento e, sobretudo, da maneira como alguém age quando não existe plateia.

“Aura farming” é uma expressão inglesa que se popularizou por volta de 2024, ligada a comunidades de videogames, animes e edições de vídeos. Posteriormente, foi incorporada ao vocabulário brasileiro como “farmar aura”, mais uma importação da cultura digital em um país que ainda enfrenta graves deficiências na educação e no acesso à cultura.

A aura verdadeira, ao contrário, não precisa ser proclamada. Ela simplesmente é percebida.

Que nossos jovens consigam reconhecer e superar essa imbecilidade moderna. Que escolham construir conhecimento, caráter e consciência, e que a luz da sabedoria possa, um dia, inundar o nosso país.

 

Jonas Comin

 

09 fevereiro 2026

 

A realidade que não existe

 

Os reality shows são o espelho mais distorcido da vida moderna. Perda de tempo para quem busca entretenimento verdadeiro. Há tantos filmes ricos em história, documentários inspiradores, dramas, comédias e produções que realmente fazem pensar.

 O reality show, em comparação, é raso.

 Vende emoção, mas entrega manipulação. Nada ali é real. Mostra “a vida como ela é”, mas cada gesto, olhar e lágrima é roteirizado. O público acredita estar vendo a essência humana, quando na verdade assiste a uma encenação meticulosamente montada para gerar audiência e lucro.

 Há versões que colocam e expoem pessoas jovens ou maduras, com histórias reais e sentimentos sinceros, dentro de um cenário artificial que promete amor e reconciliação como mágica. Mas tudo é calibrado, armado, ensaiado. As falas, os cortes e até as “coincidências” de afinidade são conduzidos nos bastidores. Regras absurdas, expulsões forçadas e castigos desumanos fazem parte do espetáculo.

 A emoção é vendida como espontânea, mas é cuidadosamente editada para manter o espectador preso ao sofá. O resultado é um entretenimento pobre, vazio e superficial.

 O problema não está no lazer, e sim no que ele provoca na percepção das pessoas. Esses programas mostram uma versão editada da vida e fazem o público acreditar que relacionamentos, sucesso e superação seguem um roteiro pronto. Isso afeta as relações reais, cria expectativas impossíveis e distorce o senso de verdade. Há muitos que insinuam que o “show” é um “experimento de comportamento humano”: um verdadeiro absurdo!

 Mas a vida real não é assim.

 A vida é imperfeita, cheia de pausas, desvios, alegrias, tristezas, surpresas, frustrações e silêncios. E é justamente nisso que mora a beleza da existência.

 Quando a TV e o streaming impõem o ritmo da ficção sobre o cotidiano, o ser humano passa a se sentir insuficiente, como se não vivesse o bastante, não amasse o bastante, não brilhasse o bastante.

 É bom lembrar: reality show não é vida. É produto. É entretenimento. Muitas vezes, uma fábrica de ilusões disfarçada de sinceridade. Quem confunde espetáculo com realidade acaba vivendo num palco vazio, esperando aplausos que nunca vêm. E pobres das pessoas que se sujeitam a isso em troca de fama passageira, expostas a uma sociedade já saturada de aparências.

Hoje, o bombardeio é ainda maior. As redes sociais ampliaram esse teatro da vaidade. Nelas, todos querem parecer infalíveis, bem-sucedidos, cercados de luxo e alegria permanente. Mas a vida não é isso.

 A vida é feita de altos e baixos, como uma onda senoidal, ora em alta, ora em baixa. E está tudo bem assim.  A vida real vale muito a pena!

                                                                                                                        Jonas Comin


 “Em uma sociedade onde tudo é exibido, a realidade se torna um espetáculo, e o espetáculo substitui a própria vida.” -   Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo

01 janeiro 2026


Metanoia

Metanoia é uma palavra de origem grega que significa mudança de mente. Não no sentido raso de simplesmente mudar de ideia sobre algo, mas de transformar a forma de pensar, perceber e viver a vida. Trata-se de uma reorientação real, profunda, quase uma reforma estrutural no modo de enxergar o mundo e a si mesmo.

Percebo que estou em processo.

E esse processo não foi uma ruptura.

É algo mais próximo de uma mudança silenciosa, como quem gira levemente o botão de ajuste fino de um rádio de telecomunicações, buscando captar a mensagem com mais clareza e menos ruído. Ou como o foco de uma lente que, após um pequeno ajuste, permite enxergar melhor aquilo que sempre esteve ali.

Em algum ponto do caminho, percebi que certas respostas já não sustentavam mais as perguntas que eu carregava. E não foi a vida que ficou mais difícil. Foi o olhar que ficou mais atento. O automático começou a incomodar. O raso perdeu o encanto. O excesso de certezas passou a soar frágil. Coisas que antes passavam despercebidas passaram a se impor diante de mim, quase como convites inevitáveis à reflexão.

Passei a desconfiar menos do mundo e mais das explicações fáceis que eu mesmo aceitava.

Como sempre fiz desde a infância, voltei a buscar respostas. Apoiei-me em livros, em sábios, na experiência humana acumulada por aqueles que, antes de nós, se depararam com inquietações semelhantes e conseguiram expressá-las em palavras. Palavras que atravessam o tempo e ainda hoje nos alcançam, oferecendo não soluções prontas, mas companhia na busca.

Foi nesse percurso que encontrei uma palavra capaz de nomear aquilo que, em silêncio, já vinha acontecendo em mim: metanoia. Não como arrependimento no sentido moral, mas como mudança de mente, deslocamento de eixo e reorientação interior da consciência.

A metanoia não me afastou da razão, da fé ou da técnica. Pelo contrário, ela me obrigou a integrá-las. A deixar de compartimentar o que penso, o que sinto e o que faço. A buscar coerência, não perfeição.

Para quem convive comigo, talvez isso esteja mais aparente. Menos pressa em responder. Mais cuidado ao afirmar. Um silêncio que não representa afastamento, mas atenção. Algumas conversas deixaram de acontecer. Outras tornaram-se mais profundas.

Nem sempre é confortável. Nem para mim, nem para o outro.

O que busco, a partir da experiência de vida, é partilhar aquilo que carrego no coração. Não como quem ensina, mas como quem oferece, com respeito e disponibilidade. Talvez, assim, a vida de outras pessoas possa se tornar mais leve e mais plena.

Entendo que, visto de fora, esse processo possa ser interpretado como mudança, estranhamento ou até distância. Mas, por dentro, ele é aproximação.

Aproximação de mim mesmo. Do essencial. Daquilo que não precisa ser defendido com barulho.

Escrevo porque pensar sozinho já não basta. Leio porque sei que não caminho só. Questiono porque acredito que a fé, a razão e a própria vida só amadurecem quando são atravessadas pela honestidade.

Este texto não é um ponto de chegada. Com certeza não é. Ele é um registro de percurso. Um sinal de que algo mudou e continua mudando.

Se isso ressoar em quem lê, ótimo.

Se causar desconforto, tudo bem também.

Metanoia não pede concordância.

Pede atenção.
Pede calma.
Pede tempo.
Pede compreensão.

A metanoia é um processo de tentativa. Tentativa de dar novo sentido, de se aproximar mais do divino, de responder, ainda que apenas internamente, às questões que a vida nos apresenta. Questões que, muito provavelmente, nos acompanharão até o fim. E das quais partiremos sem todas as respostas.

A metanoia não oferece respostas definitivas. Ela nos ensina a habitar as perguntas com mais verdade.


E talvez seja essa a forma mais honesta de atravessar a vida.

 

Jonas Comin


20 novembro 2025

 

Que a morte me encontre vivo

 

O título dessa mensagem foi extraída de textos e palestras do Leandro Karnal, e foi popularizada no Brasil por ele. Antes dele, Donald Winnicott , psicanalista inglês, usava essa frase como: "Tomara que a morte me encontre vivo."

 O medo presente nessa frase, não é a morte em si, mas a morte em vida.

 É o pavor de chegar ao fim e perceber que não se viveu, que apenas... se existiu.

 E as diferenças entre existir e viver são muito grandes:

 ·         Existir é ser passivo. É acordar, cumprir obrigações, pagar contas, seguir o roteiro e dormir. É o piloto automático.

·         Viver é ser ativo. É estar presente, fazer escolhas, sentir com intensidade, buscar propósito, arriscar, amar, falhar e aprender.

Quando a morte encontra alguém "morto em vida",  ela apenas conclui um processo que já começou. Encontra uma casca, alguém que já tinha desistido da essência da vida, talvez por medo, apatia ou conformismo.


A frase de Karnal e Winnicott é um grito de alerta contra esse medo ou conformismo.

 Os filósofos estoicos, como Sêneca e Marco Aurélio,  tinham uma prática chamada Memento Mori – "Lembre-se de que você é mortal".

 Isso não era para ser deprimente; era para ser um combustível. A consciência da morte não deve nos paralisar de medo; deve nos chacoalhar para a urgência da vida.

 "Que a morte me encontre vivo" é a consequência direta de um bom Memento Mori.

  Se eu sei que meu tempo é finito, não posso jamais desperdiçá-lo. Não posso deixar o "viver de verdade" para amanhã.

 A morte deixa de ser uma inimiga e se torna uma conselheira, que sussurra em nosso ouvido: "Ame agora. Faça agora. Seja agora. Porque eu posso bater à sua porta a qualquer momento."

 Ser "encontrado vivo" pela morte é ser encontrado no auge dessa construção.

 É morrer:

 Em plena ação: No meio de um projeto, de uma paixão, de uma luta.

Sendo autêntico: Tendo vivido uma vida que foi sua, e não a vida que os outros esperavam de você.

Sem arrependimentos: Ou, pelo menos, com os "arrependimentos certos", aqueles que vêm de tentar, e não de nunca ter tentado.

É a ideia de que, no último segundo, você possa olhar para trás e dizer: "Sim, fui eu que vivi tudo  isso. Com todas as dores e delícias, eu estive lá. Eu estive presente na minha própria vida."

 Portanto, a frase é uma aspiração, um norte para nossa jornada. É o desejo de que, quando chegar a hora, ela não nos pegue sonolentos ou distraídos, mas em plena ação, ofegantes, suados, talvez machucados, mas tendo dançado a dança inteira com toda a intensidade que tínhamos.

 Que a morte tenha “trabalho" para nos levar, que ela nos encontre no auge de nossa vida, com vitalidade e não em um estado de desistência e medo, encolhidos em um canto,  esperando por ela.

 

Jonas Comin

 

22 setembro 2025



Que ninguém passe por ti em vão

Platão foi um filósofo grego. Nasceu em Atenas, em 427 a.C., e morreu por volta de 347 a.C. Foi discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles, formando uma das tríades mais influentes da filosofia ocidental. 

Escreveu seus ensinamentos em forma de diálogos filosóficos, nos quais frequentemente Sócrates é o personagem principal.

Algumas de suas obras mais famosas são:

A República (sobre justiça e a cidade ideal)

O Banquete (sobre o amor)

Fedro (sobre a alma e a retórica)

Timeu e Parmênides (sobre cosmologia e metafísica)

Uma das ideias centrais de Platão é o “bem” como princípio supremo. Para ele, o bem é a forma mais elevada e a fonte de toda verdade e justiça.

Outra concepção marcante é a da “Alegoria da Caverna”: metáfora sobre o conhecimento e a ignorância, na qual os homens vivem presos às sombras (ilusões) até despertarem para a luz da verdade (tema para outro dia).

Vamos nos concentrar na ideia da prática do “bem”.

Platão nos ensinou que a alma humana só encontra sua plenitude ao praticar o bem. 

Viver é mais do que existir — é tocar o outro com presença, com palavra, com gesto. Que ninguém cruze teu caminho e diga: “Dele, nada recebi.”

Mesmo no silêncio pode haver acolhimento, e até um olhar pode ser luz para quem anda na escuridão. O verdadeiro sábio não acumula virtudes para si; ele as reparte como quem distribui água a viajantes sedentos.

Se não for possível ensinar, que se inspire. Se não for possível curar, que ao menos não se machuque. Mas se houver oportunidade de doar algo,  uma escuta, um pensamento, um alento, que não se perca.

Ser útil ao outro é caminhar rumo ao bem. E o bem, dizia Platão, é aquilo que nos torna mais próximos do divino.

Platão não apenas influenciou profundamente a filosofia, mas também a teologia, a política, a psicologia e a educação. Sua Academia funcionou por quase 900 anos, até ser fechada no século VI d.C.

Que o bem não seja apenas um ideal filosófico, mas um gesto diário.

Que sejamos lembrados, não pelo que possuímos, mas pelo que soubemos oferecer.

E que, ao fim de nossa jornada, se possa dizer com verdade: “Dele, recebi muito.”

Jonas Comin


18 setembro 2025



A matemática inscrita na natureza  

As abelhas zumbem, voam e produzem mel. Mas por trás das asas que vibram e dos favos dourados que encantam os olhos, elas escondem um segredo antigo, elegante e silencioso: são exímias matemáticas.

 Ao construir suas colmeias, não escolhem qualquer forma. Usam o hexágono, figura de seis lados iguais, capaz de preencher um espaço plano sem deixar lacunas. A construção dos alvéolos, pelo fato de serem usados apenas dois tipos de ângulos, um de 109028′ e outro, seu suplemento, de 70032′, são ângulos perfeitos, que se repetem nas colmeias ao redor da Terra e não são escolhidos ao acaso. O hexágono é a forma que, com o menor perímetro, consegue armazenar o maior volume. Ou seja, com o mínimo de cera, as abelhas obtêm o máximo de espaço. Isso é eficiência. Isso é geometria pura aplicada à sobrevivência.

 Estudos científicos e observações revelaram que, ao buscarem néctar, as abelhas traçam rotas otimizadas entre os campos e as flores. Sem saber calcular como os humanos, elas resolvem, de forma instintiva, versões do complexo "problema do caixeiro viajante". Buscam o menor caminho entre muitos pontos, economizando energia, ganhando tempo e garantindo alimento para a colmeia.

Quando uma abelha encontra alimento, retorna à colmeia trazendo consigo a informação precisa da descoberta. Compartilha com suas companheiras dados sobre a rota, a direção, o sentido, a posição e até mesmo a direção do vento. E tudo isso é transmitido por meio de uma dança matemática. Ela vibra em zigue-zague, sobe, desce, descreve ângulos e curvas. Nessa coreografia, codifica e repassa dados baseados na posição do Sol.

Além da geometria e da otimização de rotas, as abelhas revelam outra habilidade fascinante: a simetria. Seus corpos e asas seguem padrões precisos, harmônicos e repetidos. Há algo de poético nisso. A natureza parece escrever com compassos invisíveis, usando as abelhas como instrumentos de sua própria inteligência. 

Ao observarmos uma colmeia, vemos mais do que insetos em movimento. Enxergamos o reflexo de uma ordem natural que valoriza a lógica, a harmonia e a eficiência. As abelhas não aprendem isso em escolas. Praticam uma matemática intuitiva, instintiva e perfeita, que muitas vezes ultrapassa a engenhosidade humana.

A colmeia, afinal, não é apenas uma moradia. É um manifesto. É arte geométrica. É o grito silencioso de que a matemática está viva, pulsando entre as flores, dançando no ar e se escondendo não apenas no zumbido e na dança das abelhas, mas em toda a natureza abundante do planeta Terra.

Nós, humanos “inteligentes”, precisamos prestar mais atenção na natureza e aprender com ela. Sempre digo: o Criador é o grande matemático e geômetra.

 Galileu já dizia: “A matemática é a linguagem com a qual Deus escreveu o universo.”

 

Jonas Comin

17 setembro 2025


 

Uma vida inteira de saudades!

Vivo com saudades,

De amigos que ficaram pelo caminho, dos que já se foram, de lugares que guardam pedaços de mim, de conversas interrompidas pelo tempo.

Carrego saudades do passado, dos instantes que já não voltam. Mas também do futuro, daquilo que ainda não vivi e que já sinto falta como se fosse memória.

Tenho saudades de situações que nunca aconteceram, de abraços que não dei, de caminhos que não percorri. É como se o coração se antecipasse e desejasse aquilo que ainda está distante. 

E, no meio disso tudo, sinto saudades de mim mesmo. Daquele que fui, daquilo que deixei de ser, e até do que poderia ter sido.

A saudade é uma ponte entre o que passou e o que não chegou. Ela me lembra que estou vivo, que sinto, que sonho, que desejo. 

Talvez viver seja isso: aprender a conviver com a saudade como quem guarda uma chama: pequena ou grande, que nunca se apaga.

 

Jonas Comin

 

O destino dos átomos

 A grande questão que nos acompanha durante a vida é: o que vem após a morte? O que acontece com nosso espírito e com nosso corpo físico?

 A religião nos ensina que, após a morte, nosso espírito habitará o eterno, em outra morada, na vida nova, livre dos sofrimentos terrenos e em um lugar chamado “paraíso”.

 Jesus, em seus ensinamentos, nos promete isso. Outras crenças também oferecem esperança a seus seguidores de que, depois de nossa jornada por aqui, um novo lugar nos aguarda.

 Mas, fisicamente, o que ocorre com o invólucro de nossa alma?

Quando o corpo se silencia e a respiração se apaga, não é o fim, mas o início de uma metamorfose invisível.

 Os átomos que sustentaram músculos, que fizeram nosso cérebro funcionar e que constituíram nosso corpo começam a se desprender, retornando ao grande ciclo da natureza.

 O carbono, que deu forma às células e aos sonhos, dissolve-se em dióxido de carbono, seguindo para o ar ou repousando no solo em novos compostos. O nitrogênio, que correu em nossas veias, transforma-se em amônia e nitratos, nutrindo a terra e servindo de alimento às plantas. O fósforo e o cálcio, guardiões da estrutura dos ossos, lentamente regressam ao solo, fertilizando a vida. Hidrogênio e oxigênio reencontram a água, fechando o ciclo que nos deu origem.

Segundo a ciência, nada se perde, tudo se transforma. Do ponto de vista físico, toda energia que nos mantinha vivos retorna ao grande fluxo universal. A mesma energia que um dia entrou em nós pela comida, pela água, pelo ar e pelo sol volta às correntes de troca da natureza.

 Do ponto de vista filosófico, podemos imaginar que essa energia vital não desaparece, mas se integra ao todo, como uma centelha que se dissolve no fogo imenso do cosmos.

 O corpo humano, que um dia foi matéria consciente, reencontra sua origem cósmica. Os átomos que hoje nos formam, amanhã estarão no tronco de uma árvore, no voo de um pássaro, na água de um rio ou no brilho de uma estrela distante.

 É a dança eterna da matéria. Na morte, não há aniquilação, mas reintegração. Somos poeira de estrelas que, ao cessar da vida, retorna ao universo para se tornar parte de outros corpos, de outros mundos, de outras histórias.

 Essa é a grande lição: ao morrer, devolvemos ao universo aquilo que ele nos emprestou. Em cada ciclo, em cada transformação, a vida se renova.

 Carl Sagan dizia que somos poeira de estrelas. Os antigos filósofos viam a alma como um sopro que atravessa a matéria.

 Talvez a verdade esteja na união dessas visões: somos espírito que habita brevemente a carne, mas somos também matéria eterna, que jamais se extingue, apenas muda de forma.

 Na morte, não desaparecemos. Reencontramos o todo do qual sempre fizemos parte

 

Jonas Comin

16 setembro 2025

 






 
Água Viva, abençoada!

 

Neste fim de semana, fui assistir à missa no Santuário São Manoel, perto de casa. 

A cidade tem um pároco novo, Padre Nilson. E, antes mesmo de ir à sua missa, já havíamos feito amizade: ele é o novo amigo do pedal.

 No sábado, após um encontro com amigos queridos, decidi entrar e participar da celebração que ia começar. Nesse fim de semana, a Igreja Católica celebrou o Dia da Santa Cruz. 

Em um ambiente de fé, onde reencontrei rostos conhecidos e alguns  amigos, a missa teve início. Após o rito de introdução, Padre Nilson explicou a importância do dia e o simbolismo da cruz de Cristo. 

Quando estou em uma missa ou em qualquer outro culto, costumo filosofar internamente, buscando entender, à minha maneira, a presença de Deus.

 Durante o rito, houve a aspersão de água benta, ao som da música  -  “Vem, oh! Água Viva”. Nesse instante, quando as gotas tocaram minha pele e vi os fiéis ao redor, um pensamento me atravessou profundamente: o quanto a água é sagrada para nós! 

A água, esse bem tão abundante em nosso planeta, é usada por nós todos os dias. Bebemos, preparamos comida, lavamos nosso corpo e nossa casa, regamos plantas, purificamos alimentos… Somos feitos de 70% de água, e nosso planeta, o Planeta Água, é 71% coberto por ela.

 É fascinante imaginar que a água que usamos hoje é a mesma de quando o planeta se formou. Vivemos em um sistema fechado. A água que toca nossa pele pode ter sido, no passado, de um animal pré-histórico, de uma pessoa, de uma árvore, de uma flor, de um rio. Por isso, ela é sagrada!

 Ontem, quando aquelas gotas abençoavam e caiam sobre todos, percebi que muitos fiéis estavam em posição de gratidão a Deus, com as mãos estendidas para o céu, aguardando que as gotas atingissem e purificassem seu espírito sedento. 

Enquanto a música ecoava, com as gotas de água viajando pelo ar, o refrão dizia: 

“Vem, oh água viva, oh água pura. Fecundar meu coração.

Vem, oh água viva, oh água pura. Transformar meu coração.”

Confesso que um sentimento de gratidão e emoção tomou conta do meu ser. Percebi o quanto nós, seres humanos, somos uma raça privilegiada e querida do Criador.

Somos totalmente dependentes da água da vida. Sem ela, não existiríamos neste planeta. 

Quem sabe se as moléculas e os átomos dessa água,  que viaja pelo mundo, não carregam energias e ensinamentos de nossos antepassados e,  quando entram em contato conosco, nos abençoam de verdade e nos fazem entrar em sintonia e sincronismo com o universo e o Criador.

 Fazemos parte do Universo, somos formados pela poeira cósmica que chegou por aqui e se fixou, somos água...água viva!

 Jonas Comin

 Link: Música “Vem oh! Água Viva

 https://youtu.be/Sq8BfRCWnc8?si=mkolJ1Gs_2gfLD_z