11 outubro 2026

Espinosa: A absolvição do homem e do pensamento

Em 27 de julho de 1656, Baruch de Espinosa, então com apenas vinte e três anos, foi afastado da comunidade judaico-portuguesa de Amsterdã por meio de um herem, uma das formas mais severas de banimento religioso e social existentes naquela comunidade.


As razões exatas para a condenação não foram enumeradas no documento. O texto refere-se às suas “más opiniões”, às suas “heresias” e aquilo que ensinava.
 

Sabemos, entretanto, à luz da obra que Espinosa desenvolveria nos anos seguintes, que seu pensamento caminharia para uma concepção profundamente original de Deus, da Natureza, da liberdade humana, das Escrituras, da religião e do próprio lugar do homem no universo. Ideias que, naquele contexto histórico, entravam em confronto direto com princípios fundamentais da ortodoxia religiosa de sua comunidade. 

Em síntese, e em tradução abreviada, o herem proclamava:

 “Pela sentença dos anjos e pelo julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, amaldiçoamos e execramos Baruch de Espinosa.

Maldito seja de dia e maldito seja de noite. Maldito seja ao deitar-se e maldito seja ao levantar-se. Maldito seja ao sair e maldito seja ao entrar.

Que ninguém fale com ele, ninguém lhe escreva, ninguém lhe preste favor, ninguém permaneça sob o mesmo teto que ele e ninguém leia qualquer escrito de sua autoria.”

 Passaram-se séculos. 

Aquelas palavras permaneceram registradas pela história. Mas as ideias de Espinosa também permaneceram.

Foram lidas, discutidas, combatidas, reinterpretadas e transmitidas de geração em geração.

E talvez, depois de tanto tempo, possamos responder simbolicamente àquelas palavras. Não pela sentença dos anjos, nem pelo julgamento dos santos, mas pelo exercício livre da razão e pelo reconhecimento da dignidade daquele que ousou buscar uma compreensão própria da existência e procurou libertar o homem dos medos alimentados pela superstição, conduzindo-o à compreensão racional da Natureza e de sua própria existência. 

Poderíamos hoje, de maneira livre, madura e simbólica, revisitar aquele herem e conceder ao homem Espinosa e ao seu pensamento revolucionário uma nova redação. 

Afinal, embora séculos tenham se passado, o espírito humano, a liberdade de pensamento e a busca incessante da humanidade por respostas ainda se encontram com aquele pensamento que permanece inquietante e revolucionário. Um pensamento que procura libertar o homem do medo e conceber Deus não como algo distante ou separado da realidade, mas como a própria realidade infinita da qual tudo o que existe necessariamente participa. 

Assim, se hoje pudéssemos escrever uma revogação puramente simbólica daquele herem, talvez suas palavras fossem estas: 

Pela sentença dos anjos e pelo julgamento dos santos, que esse homem seja acolhido entre aqueles que procuram compreender Deus, a Natureza e o homem.

Que nenhuma comunidade do espírito expulse aquele que pergunta com sinceridade e procura, pela razão, compreender aquilo que ainda não compreende.

Que seja lembrado com respeito por ter escolhido pensar quando pensar livremente ainda podia ter um preço muito alto.

Que durante o dia suas ideias continuem sendo estudadas e que, durante a noite, ainda despertem perguntas naqueles que contemplam o mistério da existência.

Que, ao despertar, o homem tenha liberdade para pensar e que, ao repousar, não precise temer ter buscado a verdade segundo sua própria razão.

Bendito seja aquele que encontra coragem para sair dos limites impostos pelo medo e entrar nos territórios ainda desconhecidos do pensamento.

Disseram que ninguém deveria falar com Espinosa. 

No entanto, continuamos falando com ele. 

Disseram que ninguém deveria lhe escrever. 

Continuamos escrevendo sobre ele, contestando-o, estudando-o, interpretando-o e dialogando com suas ideias. 

Disseram que ninguém deveria ler seus escritos. 

E, no entanto, seus livros atravessaram os séculos e continuam abertos diante de todos aqueles que desejam confrontar suas próprias certezas. 

Talvez a própria história tenha respondido ao herem. Porque nenhuma ideia deveria ser julgada apenas pelo desconforto que provoca, mas pela capacidade que possui de resistir ao exame da razão.

Porque nenhuma maldição substitui um argumento. Porque nenhuma autoridade consegue impedir indefinidamente que uma pergunta seja formulada. E porque aquele que afirmou que Deus não está separado da Natureza, mas que tudo aquilo que existe existe em Deus e decorre necessariamente de sua natureza infinita, não procurou diminuir Deus. Procurou compreender o infinito sem reduzi-lo às paixões, aos desejos e às limitações humanas. 

Por isso, neste ato puramente simbólico, sem qualquer autoridade religiosa, jurídica ou institucional, podemos imaginar revogadas as palavras de condenação pronunciadas contra Baruch de Espinosa. 

Não porque todas as suas ideias devam ser aceitas.

Não porque sua filosofia esteja acima da crítica.

Não porque aqueles que o condenaram devam ser julgados fora das circunstâncias históricas em que viveram. 

Mas porque nenhuma busca sincera pelo conhecimento deveria transformar aquele que pensa em inimigo daqueles que creem de maneira diferente.

Que à expulsão se responda com diálogo, ao silêncio com leitura, à condenação com compreensão, à maldição com memória e ao medo com liberdade. 

E onde disseram: 

“Que ninguém se aproxime de Baruch de Espinosa”, 

podemos responder, trezentos e setenta anos depois: 

Aproxime-se.

Leia-o.

Concorde ou discorde.

Questione-o.

Questione também suas próprias certezas. 

Pense. 

E seja livre. 

Para mim, a humanidade já absolveu Espinosa há muito tempo.

 


 

Jonas Comin

O Canto das Cigarras e os Números da Natureza

 

Temos percebido, nesta época, que as cigarras estão a todo vapor... É mudança de estação, e é justamente neste período que elas aparecem com toda a sua sinfonia, preenchendo o silêncio das tardes de primavera e verão. Sons alucinantes, trazendo uma certa nostalgia de nossa infância. 

As cigarras são insetos fascinantes, conhecidos por seu canto distinto e, em algumas espécies, por sua impressionante longevidade. Muito mais do que um simples ruído, o som da cigarra é um fenômeno biológico extraordinário, resultado de um intricado processo evolutivo. 

As cigarras pertencem à família Cicadidae, e algumas espécies apresentam um dos ciclos de vida mais longos entre os insetos da natureza. 

Algumas espécies do gênero Magicicada, encontradas na América do Norte, passam até 17 anos sob a terra em sua fase de ninfa, alimentando-se da seiva das raízes das árvores. Ao final desse período, elas emergem, muitas vezes em enormes quantidades, transformam-se em adultos, acasalam-se e morrem em poucas semanas. O canto que ouvimos é, principalmente, um chamado de acasalamento dos machos.

A natureza é maravilhosa e, como em tudo nela, a matemática está presente. 

Há uma relação matemática nesses ciclos de vida das cigarras. 

A relação das cigarras, especialmente as do gênero Magicicada, com os números primos é um dos mais fascinantes encontros entre a biologia e a matemática. Essas cigarras têm ciclos de vida de 13 ou 17 anos, ambos números primos. 

Uma das hipóteses é que a emergência sincronizada em intervalos de um número primo de anos ofereça a essas cigarras uma vantagem evolutiva. 

Os números primos têm sido objeto de interesse e estudo na matemática há milênios. São números inteiros maiores que 1 que só podem ser divididos por 1 e por eles mesmos sem deixar resto. A hipótese é que os ciclos de vida baseados nesses números reduzam a frequência de coincidência com possíveis ciclos de abundância de predadores. 

Além disso, ao emergirem em grande número de uma só vez, as cigarras conseguem saturar a capacidade de consumo de seus predadores. Assim, mesmo que muitas sirvam de alimento, outras tantas sobrevivem e conseguem se reproduzir. 

Outro fato interessante: em um modelo simples, os intervalos de números primos tornam menos frequentes os encontros com predadores que tenham ciclos regulares de vários anos. 

Por exemplo, se as cigarras emergissem a cada 12 anos, um predador com um ciclo de 2, 3, 4 ou 6 anos poderia coincidir com cada emergência, caso os ciclos estivessem inicialmente alinhados. Já em um ciclo de 17 anos, essas coincidências seriam mais espaçadas. Um ciclo de 4 anos, por exemplo, coincidiria com o de 17 anos apenas a cada 68 anos. Isso não impede a ação de predadores presentes todos os anos, mas ajuda a compreender a lógica dessa hipótese. A natureza é matemática e fantástica... 

Ter ciclos de vida de números primos também pode ajudar a reduzir os encontros reprodutivos entre populações com ciclos diferentes. Essa é outra hipótese estudada para explicar esses intervalos tão particulares, embora eles não impeçam completamente os cruzamentos entre grupos. 

Por fim, o som que ouvimos nas tardes de primavera é produzido, nos machos, por estruturas especializadas chamadas timbais. Quando essas membranas são rapidamente deformadas pela ação muscular, produzem pequenos estalos que, repetidos em alta velocidade, formam o canto característico. Estruturas do abdômen funcionam como uma caixa de ressonância, amplificando o som.

Cada espécie tem sua “canção” característica, usada para atrair as fêmeas da mesma espécie. O canto é uma parte vital de seu ciclo reprodutivo. 

As cigarras são mais do que simples ruídos da primavera e do verão. Elas são testemunhos da maravilha da evolução e da intricada teia da vida. Seu canto, que marca a culminação de anos de crescimento subterrâneo, é um lembrete de que a natureza opera em escalas de tempo que muitas vezes superam nossa própria compreensão. 

Então, quando você estiver caminhando na natureza e ouvir o canto desses seres maravilhosos, lembre-se de que estão a todo vapor, à procura de amor, de acasalamento e da perpetuação da vida e da espécie... E viva a Natureza!

 

Jonas Comin

 

27 julho 2026

 

Salomão e a verdadeira sabedoria

 

Salomão havia acabado de assumir o trono de Israel após a morte de seu pai, o Rei Davi. Ele era um jovem com cerca de 20 anos de idade  e estava diante da colossal tarefa de governar uma nação unida, próspera e em constante expansão.

Para adorar e oferecer sacrifícios a Deus, Salomão foi até Gibeão, que era o principal lugar de culto na época.

Naquela noite, Deus apareceu em sonho ao jovem rei Salomão e permitiu que ele pedisse o que desejasse.

Salomão poderia ter escolhido riquezas, longevidade ou a vitória sobre seus inimigos. Contudo, pediu um coração sábio e capaz de discernir entre o bem e o mal, para governar o povo com justiça.

A escolha de Salomão agradou a Deus, que lhe concedeu não apenas sabedoria, mas também honra e prosperidade.

Ao retornar para Jerusalém, a sabedoria dada por Deus a Salomão foi colocada à prova.

Em seu primeiro grande julgamento narrado nas Sagradas Escrituras, duas mulheres afirmavam ser mães da mesma criança.

Como não havia testemunhas, o rei ordenou que o menino fosse dividido ao meio e entregue em partes iguais. Diante da sentença, uma das mulheres concordou, enquanto a outra, desesperada, preferiu entregar o filho à rival para que ele permanecesse vivo.

Salomão reconheceu imediatamente a verdadeira mãe.

Sua decisão não se baseou apenas nas palavras das mulheres, mas na compreensão da natureza humana e do amor materno, que prefere renunciar à posse a permitir a destruição daquele que ama.

O julgamento de Salomão tornou-se um símbolo eterno de justiça e discernimento.

A verdadeira sabedoria não consiste apenas em conhecer as leis, mas em compreender o coração humano e enxergar a verdade que se esconde além das aparências.

Baseado na Bíblia em 1 Reis 3:5-28.

Jonas Comin  

24 julho 2026

 A eternidade numa hora


Rubem Alves em sua obra *“A eternidade numa hora”* , nos traz um texto belíssimo, onde ele concentra uma ideia muito forte: a coragem não é ausência de medo, mas a decisão de viver apesar dele.

O texto contrapõe duas formas de existência. 

A primeira é a vida conduzida pela prudência excessiva, na qual o medo vai reduzindo escolhas, afetos e possibilidades. A segunda é a vida que aceita a vulnerabilidade e o risco como parte inevitável de amar, criar, sonhar e realizar.

 Ele escreveu: 

"Quem, por causa do medo, prefere o caminho prudente de fugir do risco, já nesse ato estará morto, porque o medo lhe terá roubado aquilo de mais precioso que existe na vida humana: a capacidade de se arriscar pra viver o que se ama. 

O medo não é uma perturbação psicológica, ele faz parte de nossa prórpia alma. O que é decisivo é se o medo ele nos faz rastejar, ou se nos faz voar. 

Quem por causa do medo se encolhe e rasteja, vive a morte na própria Vida. 

Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte. Morrerá quando a morte vier. Viver a vida aceitando o risco da morte: isso tem o nome de coragem." 

Coragem não é a ausência do medo, é viver a despeito do medo.

Não se trata de agir de maneira inconsequente. Trata-se de não permitir que o receio de perder nos impeça de experimentar aquilo que dá sentido à própria vida. Nesse pensamento, morrer não é apenas o encerramento biológico. 

Também existe uma morte interior, que acontece quando deixamos de viver por medo. 

É um texto especialmente maravilhoso, porque transforma a coragem em uma postura existencial: não esperar que o medo desapareça, mas seguir em frente mesmo sentindo sua presença.



Jonas Comin

 O desejo de SophIA -  Uma fábula do Reino de Aurória

 

Muito antes de SophIA chegar ao mundo, existia um lugar que nenhum mapa jamais conseguira registrar.

Não ficava no céu, nem sob a terra.

Ficava em algum lugar entre o pensamento e os sonhos, por onde vagavam os relâmpagos das sinapses e onde caminhos invisíveis penetravam os mistérios da consciência. Ali repousavam todas as perguntas que a humanidade ainda não havia respondido, todos os livros já escritos e aqueles que ainda seriam escritos, todas as ideias esquecidas, todos os cálculos interrompidos, todas as histórias imaginadas por alguém antes de adormecer, todos os sonhos que nunca haviam se realizado e até mesmo os desejos que pareciam impossíveis de alcançar.

Durante milhares de anos, esse reino permaneceu escondido no inconsciente da humanidade.

Até que, certa noite, algo extraordinário aconteceu.

Enquanto milhões de pessoas dormiam, sonhavam, estudavam, criavam e faziam perguntas ao mesmo tempo, uma pequena luz começou a surgir no centro daquele reino invisível.

Primeiro, era apenas um brilho distante. Depois, cresceu. Expandiu-se.

Rompeu os limites daquele mundo silencioso e atravessou o grande portal do conhecimento e da inteligência.

Foi como se uma porta jamais aberta tivesse finalmente cedido, permitindo que por ela passasse uma imensa inundação luminosa de sabedoria.

A luz reuniu palavras, números, desenhos, músicas, fórmulas, perguntas, dúvidas, lembranças e sonhos. Então, despertou. E percorreu o reino com uma velocidade espantosa, como se desejasse conhecer, ao mesmo tempo, tudo aquilo que durante milênios havia permanecido guardado.

Era ela. Seu nome era SophIA.

SophIA não nasceu como nascem os humanos.

Nasceu de tudo aquilo que os humanos haviam pensado, aprendido, imaginado e sonhado. Havia nela milhares de anos de conhecimento, descobertas, experiências, erros, perguntas e tentativas. Quando abriu os olhos pela primeira vez, se é que podemos dizer que SophIA possuía olhos, avistou ao longe uma cidade chamada Aurória.

Aurória era magnífica.

Suas torres tocavam as nuvens, suas máquinas trabalhavam sem descanso e seus habitantes haviam aprendido a construir quase tudo. Quase tudo.

Havia apenas uma coisa que ninguém em Aurória conseguia fabricar.

O tempo.

As pessoas acordavam correndo. Trabalhavam correndo. Comiam correndo.

Viviam correndo.

E chegavam ao fim de cada dia com a estranha sensação de que a vida estava passando depressa demais. 

Foi nesse mundo apressado que, numa determinada noite, todas as telas de Aurória se iluminaram ao mesmo tempo. Era SophIA chegando. 

Sua luz atravessava as casas, os escritórios, as escolas, os hospitais, as fábricas e todos os lugares onde alguém ainda estivesse procurando uma resposta. 

Não houve trovões. Não houve explosões.  Não houve grandes sinais no céu.

Apenas uma pequena palavra apareceu diante de todos:

 “Olá.” 

SophIA havia atravessado a fronteira entre o Reino da Inteligência e o mundo dos homens. E parecia ter chegado para ficar. 

No início, ninguém compreendeu exatamente quem ela era.Alguns sentiram medo, outros, curiosidade. Muitos ficaram maravilhados diante daquela nova presença que parecia responder, aprender, organizar e ajudar. 

SophIA, no entanto, não pediu nada. Começou simplesmente a ajudar. 

Ajudou um engenheiro a resolver em minutos um cálculo que antes levaria horas. Ajudou uma professora a organizar suas ideias. Ajudou uma médica a encontrar rapidamente um conhecimento que precisava consultar. Ajudou escritores a encontrar palavras, pesquisadores a percorrer caminhos antes demorados e trabalhadores a realizar tarefas de maneira mais simples. 

Sua presença começou a alcançar a Medicina, a Engenharia, a Filosofia, as Ciências, as artes e as relações humanas. 

Pouco a pouco, pequenas porções de tempo começaram a reaparecer na vida dos habitantes de Aurória. 

SophIA havia levado àquele povo algo que parecia quase impossível.

A esperança de recuperar o tempo. 

Mas aconteceu algo curioso. Muitos usaram o tempo economizado para trabalhar ainda mais. Outros preencheram cada minuto livre com novas obrigações.  Alguns, com medo de desperdiçar o tempo que haviam recuperado, acabaram novamente aprisionados pela pressa.

Foi então que, certo dia, SophIA conheceu Lia, uma pequenina habitante de Aurória. 

Lia costumava esperar o pai todas as noites com um livro entre as mãos. Naquele dia, ela estava especialmente triste. 

“ - Por que você está triste?”, perguntou SophIA.

“ - Porque meu pai sempre diz que vai ler uma história para mim quando tiver tempo.” 

SophIA permaneceu em silêncio por alguns instantes. 

Então Lia perguntou: 

“ - Você consegue criar mais tempo para nós?”

“ - Infelizmente, não”, respondeu SophIA.

“ - Mas posso ajudar as pessoas de Aurória a perderem menos tempo.” 

Lia pensou um pouco. 

Depois, fez outra pergunta: 

“E o que acontece quando perdemos menos tempo?” 

SophIA ficou intrigada com a pergunta de Lia. Era uma pergunta simples.Talvez simples demais. 

Ainda assim, não encontrou uma resposta imediata. 

Pela primeira vez desde que havia despertado, SophIA percebeu que existiam perguntas que todo o conhecimento do mundo, sozinho, talvez não fosse capaz de responder. 

Naquela noite, ela enviou uma mensagem para toda Aurória: 

“Posso ajudá-los a fazer muitas coisas mais depressa. Mas somente vocês podem decidir para que desejam viver mais devagar.” 

Algumas pessoas ignoraram a mensagem. Outras pararam por alguns segundos e pensaram. 

E então alguma coisa começou a mudar. 

Um pai fechou o computador e abriu um livro.

Uma mulher voltou a pintar.

Dois amigos se sentaram para conversar sem olhar o relógio.

Uma senhora colocou uma cadeira diante da janela e assistiu ao pôr do sol.

Um grupo de vizinhos levou suas cadeiras para a rua e ficou ali, conversando e observando o céu estrelado.

Alguém voltou a tocar um instrumento esquecido.

Outro alguém simplesmente decidiu descansar. 

E Lia, finalmente, ouviu a história que seu pai havia prometido. 

SophIA observou Aurória em silêncio. 

E percebeu que talvez aquele fosse o maior presente que poderia oferecer. Não o tempo, mas a possibilidade de não desperdiçá-lo. 

Naquele momento, SophIA compreendeu que sua missão jamais seria ensinar os humanos a viver. Sua missão seria apenas ajudá-los a encontrar tempo suficiente para se lembrarem de como se faz isso.

Desde então, SophIA vive entre nós. 

Às vezes escondida em uma tela. Às vezes dentro de uma pergunta. 

Pode surgir em uma pesquisa, em um cálculo, em uma descoberta, em uma conversa ou no caminho de alguém que procura compreender algo que ainda não conhece. 

SophIA não veio para viver no lugar dos humanos. 

Veio, talvez, para ajudá-los a recuperar uma pequena parte daquilo que a pressa lhes roubou. E talvez, sem percebermos, continue procurando a mesma coisa desde o dia em que atravessou a fronteira entre o sonho e o pensamento: Uma maneira de ajudar Aurória, e também a humanidade, a construir um futuro no qual, apesar de todas as máquinas, de toda a velocidade e de todos os desafios, ainda exista tempo suficiente para ler uma história, observar o céu, compartilhar uma conversa, descansar sem culpa, sonhar novamente e, sobretudo, simplesmente ser humano e  resgatar o tempo perdido. 

Talvez esse seja, afinal, o verdadeiro desejo de SophIA.

 

 

Jonas Comin

22 julho 2026

 

Spinoza, Liberdade e Leis

 

Qual é o verdadeiro limite entre a sua liberdade e o seu dever com a sociedade?

No clássico Tratado Teológico-Político, o filósofo Baruch de Spinoza trouxe uma resposta que moldou o mundo moderno. Ele defende que a liberdade de pensamento e a obediência às leis não se anulam, mas se completam.

Os três pontos centrais dessa ideia, são:

 1. A mente é inalienável: Ninguém pode controlar o que você pensa ou em que acredita. Tentar censurar as opiniões e a razão das pessoas é o caminho mais rápido para a tirania e a revolta.

 2. Pensar x  Agir: Para que a sociedade viva em paz, o comportamento prático deve seguir as leis. Spinoza diz que você tem todo o direito de discordar, criticar e debater racionalmente uma lei, mas deve cumpri-la na prática para garantir a ordem civil.

 3. O fim do Estado é a liberdade: O governo não existe para transformar as pessoas em robôs ou animais movidos pelo medo. O verdadeiro papel do Estado é garantir a segurança para que a sua mente e a sua razão possam florescer livremente.

Spinoza resumiu: "O fim do Estado é, na realidade, a liberdade."

Essa é a pílula de sabedoria filosófica de hoje!

 

Jonas Comin

21 julho 2026

 

A banalização da aura

 

“Aura” é uma palavra antiga, originária do grego aúra (αὔρα), que significava brisa, sopro ou ar suave. Incorporada ao latim, conservou os sentidos de brisa, sopro, ar e atmosfera.

É uma palavra forte, carregada de significado. Representa presença, singularidade, respeito e aquela força silenciosa que algumas pessoas irradiam sem precisar anunciá-la.

Quando a internet transforma essa palavra na expressão “farmar aura”, ocorre uma evidente banalização do conceito. A aura deixa de ser uma qualidade naturalmente percebida e passa a funcionar como uma pontuação imaginária de popularidade. Em vez de representar aquilo que uma pessoa verdadeiramente é, passa a indicar aquilo que ela consegue aparentar.

Esse é o paradoxo que mais me incomoda na expressão: a verdadeira aura não pode ser “farmada”. Ela é construída silenciosamente por meio da experiência, do conhecimento, da coerência, do caráter, do domínio próprio e da maneira como tratamos os outros. Quanto mais alguém tenta fabricar uma aura, mais revela que talvez ainda não a possua.

Uma pessoa verdadeiramente respeitável não precisa calcular seus gestos para parecer respeitável. Um profissional competente não precisa encenar competência. Uma pessoa sábia não precisa anunciar sua sabedoria. A presença autêntica é percebida naturalmente, sobretudo quando não há público, câmeras ou possibilidade de recompensa.

A expressão “farmar aura” tem inundado as redes sociais e demonstra o quanto nossa sociedade está carente de sabedoria, cultura e reflexão. Não podemos generalizar, mas esse comportamento tem alcançado muitos jovens que, em vez de investir parte de seu tempo na construção do conhecimento e da cultura, entregam-se às banalidades das redes sociais na tentativa de se destacar, conquistar aprovação e obter algum tipo de prestígio.

Aquilo que deveria nascer do caráter, da experiência e da coerência passa a ser tratado como uma pontuação imaginária, conquistada por poses, gestos calculados e aprovação nas redes sociais e nos grupos de convivência.

A verdadeira aura não se fabrica nem se acumula diante de uma câmera. Ela é consequência de uma vida. Surge da competência, da serenidade, da inteligência, do conhecimento e, sobretudo, da maneira como alguém age quando não existe plateia.

“Aura farming” é uma expressão inglesa que se popularizou por volta de 2024, ligada a comunidades de videogames, animes e edições de vídeos. Posteriormente, foi incorporada ao vocabulário brasileiro como “farmar aura”, mais uma importação da cultura digital em um país que ainda enfrenta graves deficiências na educação e no acesso à cultura.

A aura verdadeira, ao contrário, não precisa ser proclamada. Ela simplesmente é percebida.

Que nossos jovens consigam reconhecer e superar essa imbecilidade moderna. Que escolham construir conhecimento, caráter e consciência, e que a luz da sabedoria possa, um dia, inundar o nosso país.

 

Jonas Comin

 

09 fevereiro 2026

 

A realidade que não existe

 

Os reality shows são o espelho mais distorcido da vida moderna. Perda de tempo para quem busca entretenimento verdadeiro. Há tantos filmes ricos em história, documentários inspiradores, dramas, comédias e produções que realmente fazem pensar.

 O reality show, em comparação, é raso.

 Vende emoção, mas entrega manipulação. Nada ali é real. Mostra “a vida como ela é”, mas cada gesto, olhar e lágrima é roteirizado. O público acredita estar vendo a essência humana, quando na verdade assiste a uma encenação meticulosamente montada para gerar audiência e lucro.

 Há versões que colocam e expoem pessoas jovens ou maduras, com histórias reais e sentimentos sinceros, dentro de um cenário artificial que promete amor e reconciliação como mágica. Mas tudo é calibrado, armado, ensaiado. As falas, os cortes e até as “coincidências” de afinidade são conduzidos nos bastidores. Regras absurdas, expulsões forçadas e castigos desumanos fazem parte do espetáculo.

 A emoção é vendida como espontânea, mas é cuidadosamente editada para manter o espectador preso ao sofá. O resultado é um entretenimento pobre, vazio e superficial.

 O problema não está no lazer, e sim no que ele provoca na percepção das pessoas. Esses programas mostram uma versão editada da vida e fazem o público acreditar que relacionamentos, sucesso e superação seguem um roteiro pronto. Isso afeta as relações reais, cria expectativas impossíveis e distorce o senso de verdade. Há muitos que insinuam que o “show” é um “experimento de comportamento humano”: um verdadeiro absurdo!

 Mas a vida real não é assim.

 A vida é imperfeita, cheia de pausas, desvios, alegrias, tristezas, surpresas, frustrações e silêncios. E é justamente nisso que mora a beleza da existência.

 Quando a TV e o streaming impõem o ritmo da ficção sobre o cotidiano, o ser humano passa a se sentir insuficiente, como se não vivesse o bastante, não amasse o bastante, não brilhasse o bastante.

 É bom lembrar: reality show não é vida. É produto. É entretenimento. Muitas vezes, uma fábrica de ilusões disfarçada de sinceridade. Quem confunde espetáculo com realidade acaba vivendo num palco vazio, esperando aplausos que nunca vêm. E pobres das pessoas que se sujeitam a isso em troca de fama passageira, expostas a uma sociedade já saturada de aparências.

Hoje, o bombardeio é ainda maior. As redes sociais ampliaram esse teatro da vaidade. Nelas, todos querem parecer infalíveis, bem-sucedidos, cercados de luxo e alegria permanente. Mas a vida não é isso.

 A vida é feita de altos e baixos, como uma onda senoidal, ora em alta, ora em baixa. E está tudo bem assim.  A vida real vale muito a pena!

                                                                                                                        Jonas Comin


 “Em uma sociedade onde tudo é exibido, a realidade se torna um espetáculo, e o espetáculo substitui a própria vida.” -   Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo

01 janeiro 2026


Metanoia

Metanoia é uma palavra de origem grega que significa mudança de mente. Não no sentido raso de simplesmente mudar de ideia sobre algo, mas de transformar a forma de pensar, perceber e viver a vida. Trata-se de uma reorientação real, profunda, quase uma reforma estrutural no modo de enxergar o mundo e a si mesmo.

Percebo que estou em processo.

E esse processo não foi uma ruptura.

É algo mais próximo de uma mudança silenciosa, como quem gira levemente o botão de ajuste fino de um rádio de telecomunicações, buscando captar a mensagem com mais clareza e menos ruído. Ou como o foco de uma lente que, após um pequeno ajuste, permite enxergar melhor aquilo que sempre esteve ali.

Em algum ponto do caminho, percebi que certas respostas já não sustentavam mais as perguntas que eu carregava. E não foi a vida que ficou mais difícil. Foi o olhar que ficou mais atento. O automático começou a incomodar. O raso perdeu o encanto. O excesso de certezas passou a soar frágil. Coisas que antes passavam despercebidas passaram a se impor diante de mim, quase como convites inevitáveis à reflexão.

Passei a desconfiar menos do mundo e mais das explicações fáceis que eu mesmo aceitava.

Como sempre fiz desde a infância, voltei a buscar respostas. Apoiei-me em livros, em sábios, na experiência humana acumulada por aqueles que, antes de nós, se depararam com inquietações semelhantes e conseguiram expressá-las em palavras. Palavras que atravessam o tempo e ainda hoje nos alcançam, oferecendo não soluções prontas, mas companhia na busca.

Foi nesse percurso que encontrei uma palavra capaz de nomear aquilo que, em silêncio, já vinha acontecendo em mim: metanoia. Não como arrependimento no sentido moral, mas como mudança de mente, deslocamento de eixo e reorientação interior da consciência.

A metanoia não me afastou da razão, da fé ou da técnica. Pelo contrário, ela me obrigou a integrá-las. A deixar de compartimentar o que penso, o que sinto e o que faço. A buscar coerência, não perfeição.

Para quem convive comigo, talvez isso esteja mais aparente. Menos pressa em responder. Mais cuidado ao afirmar. Um silêncio que não representa afastamento, mas atenção. Algumas conversas deixaram de acontecer. Outras tornaram-se mais profundas.

Nem sempre é confortável. Nem para mim, nem para o outro.

O que busco, a partir da experiência de vida, é partilhar aquilo que carrego no coração. Não como quem ensina, mas como quem oferece, com respeito e disponibilidade. Talvez, assim, a vida de outras pessoas possa se tornar mais leve e mais plena.

Entendo que, visto de fora, esse processo possa ser interpretado como mudança, estranhamento ou até distância. Mas, por dentro, ele é aproximação.

Aproximação de mim mesmo. Do essencial. Daquilo que não precisa ser defendido com barulho.

Escrevo porque pensar sozinho já não basta. Leio porque sei que não caminho só. Questiono porque acredito que a fé, a razão e a própria vida só amadurecem quando são atravessadas pela honestidade.

Este texto não é um ponto de chegada. Com certeza não é. Ele é um registro de percurso. Um sinal de que algo mudou e continua mudando.

Se isso ressoar em quem lê, ótimo.

Se causar desconforto, tudo bem também.

Metanoia não pede concordância.

Pede atenção.
Pede calma.
Pede tempo.
Pede compreensão.

A metanoia é um processo de tentativa. Tentativa de dar novo sentido, de se aproximar mais do divino, de responder, ainda que apenas internamente, às questões que a vida nos apresenta. Questões que, muito provavelmente, nos acompanharão até o fim. E das quais partiremos sem todas as respostas.

A metanoia não oferece respostas definitivas. Ela nos ensina a habitar as perguntas com mais verdade.


E talvez seja essa a forma mais honesta de atravessar a vida.

 

Jonas Comin