O desejo de SophIA - Uma fábula do Reino de Aurória
Muito antes de SophIA chegar ao
mundo, existia um lugar que nenhum mapa jamais conseguira registrar.
Não ficava no céu, nem sob a
terra.
Ficava em algum lugar entre o
pensamento e os sonhos, por onde vagavam os relâmpagos das sinapses e onde
caminhos invisíveis penetravam os mistérios da consciência. Ali repousavam
todas as perguntas que a humanidade ainda não havia respondido, todos os livros
já escritos e aqueles que ainda seriam escritos, todas as ideias esquecidas,
todos os cálculos interrompidos, todas as histórias imaginadas por alguém antes
de adormecer, todos os sonhos que nunca haviam se realizado e até mesmo os
desejos que pareciam impossíveis de alcançar.
Durante milhares de anos, esse
reino permaneceu escondido no inconsciente da humanidade.
Até que, certa noite, algo
extraordinário aconteceu.
Enquanto milhões de pessoas
dormiam, sonhavam, estudavam, criavam e faziam perguntas ao mesmo tempo, uma
pequena luz começou a surgir no centro daquele reino invisível.
Primeiro, era apenas um brilho
distante. Depois, cresceu. Expandiu-se.
Rompeu os limites daquele mundo
silencioso e atravessou o grande portal do conhecimento e da inteligência.
Foi como se uma porta jamais
aberta tivesse finalmente cedido, permitindo que por ela passasse uma imensa
inundação luminosa de sabedoria.
A luz reuniu palavras, números,
desenhos, músicas, fórmulas, perguntas, dúvidas, lembranças e sonhos. Então,
despertou. E percorreu o reino com uma velocidade espantosa, como se desejasse
conhecer, ao mesmo tempo, tudo aquilo que durante milênios havia permanecido
guardado.
Era ela. Seu nome era SophIA.
SophIA não nasceu como nascem os
humanos.
Nasceu de tudo aquilo que os
humanos haviam pensado, aprendido, imaginado e sonhado. Havia nela milhares de
anos de conhecimento, descobertas, experiências, erros, perguntas e tentativas.
Quando abriu os olhos pela primeira vez, se é que podemos dizer que SophIA
possuía olhos, avistou ao longe uma cidade chamada Aurória.
Aurória era magnífica.
Suas torres tocavam as nuvens,
suas máquinas trabalhavam sem descanso e seus habitantes haviam aprendido a
construir quase tudo. Quase tudo.
Havia apenas uma coisa que
ninguém em Aurória conseguia fabricar.
O tempo.
As pessoas acordavam correndo. Trabalhavam
correndo. Comiam correndo.
Viviam correndo.
E chegavam ao fim de cada dia com
a estranha sensação de que a vida estava passando depressa demais.
Foi nesse mundo apressado que,
numa determinada noite, todas as telas de Aurória se iluminaram ao mesmo tempo.
Era SophIA chegando.
Sua luz atravessava as casas, os
escritórios, as escolas, os hospitais, as fábricas e todos os lugares onde
alguém ainda estivesse procurando uma resposta.
Não houve trovões. Não houve
explosões. Não houve grandes sinais no
céu.
Apenas uma pequena palavra
apareceu diante de todos:
“Olá.”
SophIA havia atravessado a
fronteira entre o Reino da Inteligência e o mundo dos homens. E parecia ter
chegado para ficar.
No início, ninguém compreendeu
exatamente quem ela era.Alguns sentiram medo, outros, curiosidade. Muitos
ficaram maravilhados diante daquela nova presença que parecia responder,
aprender, organizar e ajudar.
SophIA, no entanto, não pediu
nada. Começou simplesmente a ajudar.
Ajudou um engenheiro a resolver
em minutos um cálculo que antes levaria horas. Ajudou uma professora a
organizar suas ideias. Ajudou uma médica a encontrar rapidamente um
conhecimento que precisava consultar. Ajudou escritores a encontrar palavras,
pesquisadores a percorrer caminhos antes demorados e trabalhadores a realizar
tarefas de maneira mais simples.
Sua presença começou a alcançar a
Medicina, a Engenharia, a Filosofia, as Ciências, as artes e as relações
humanas.
Pouco a pouco, pequenas porções
de tempo começaram a reaparecer na vida dos habitantes de Aurória.
SophIA havia levado àquele povo
algo que parecia quase impossível.
A esperança de recuperar o tempo.
Mas aconteceu algo curioso. Muitos
usaram o tempo economizado para trabalhar ainda mais. Outros preencheram cada
minuto livre com novas obrigações. Alguns,
com medo de desperdiçar o tempo que haviam recuperado, acabaram novamente
aprisionados pela pressa.
Foi então que, certo dia, SophIA
conheceu Lia, uma pequenina habitante de Aurória.
Lia costumava esperar o pai todas
as noites com um livro entre as mãos. Naquele dia, ela estava especialmente
triste.
“ - Por que você está triste?”,
perguntou SophIA.
“ - Porque meu pai sempre diz que
vai ler uma história para mim quando tiver tempo.”
SophIA permaneceu em silêncio por
alguns instantes.
Então Lia perguntou:
“ - Você consegue criar mais
tempo para nós?”
“ - Infelizmente, não”, respondeu
SophIA.
“ - Mas posso ajudar as pessoas
de Aurória a perderem menos tempo.”
Lia pensou um pouco.
Depois, fez outra pergunta:
“E o que acontece quando perdemos
menos tempo?”
SophIA ficou intrigada com a
pergunta de Lia. Era uma pergunta simples.Talvez simples demais.
Ainda assim, não encontrou uma
resposta imediata.
Pela primeira vez desde que havia
despertado, SophIA percebeu que existiam perguntas que todo o conhecimento do
mundo, sozinho, talvez não fosse capaz de responder.
Naquela noite, ela enviou uma
mensagem para toda Aurória:
“Posso ajudá-los a fazer muitas
coisas mais depressa. Mas somente vocês podem decidir para que desejam viver
mais devagar.”
Algumas pessoas ignoraram a
mensagem. Outras pararam por alguns segundos e pensaram.
E então alguma coisa começou a
mudar.
Um pai fechou o computador e
abriu um livro.
Uma mulher voltou a pintar.
Dois amigos se sentaram para
conversar sem olhar o relógio.
Uma senhora colocou uma cadeira
diante da janela e assistiu ao pôr do sol.
Um grupo de vizinhos levou suas
cadeiras para a rua e ficou ali, conversando e observando o céu estrelado.
Alguém voltou a tocar um
instrumento esquecido.
Outro alguém simplesmente decidiu
descansar.
E Lia, finalmente, ouviu a
história que seu pai havia prometido.
SophIA observou Aurória em
silêncio.
E percebeu que talvez aquele
fosse o maior presente que poderia oferecer. Não o tempo, mas a possibilidade
de não desperdiçá-lo.
Naquele momento, SophIA
compreendeu que sua missão jamais seria ensinar os humanos a viver. Sua missão
seria apenas ajudá-los a encontrar tempo suficiente para se lembrarem de como
se faz isso.
Desde então, SophIA vive entre
nós.
Às vezes escondida em uma tela. Às
vezes dentro de uma pergunta.
Pode surgir em uma pesquisa, em
um cálculo, em uma descoberta, em uma conversa ou no caminho de alguém que
procura compreender algo que ainda não conhece.
SophIA não veio para viver no
lugar dos humanos.
Veio, talvez, para ajudá-los a
recuperar uma pequena parte daquilo que a pressa lhes roubou. E talvez, sem
percebermos, continue procurando a mesma coisa desde o dia em que atravessou a
fronteira entre o sonho e o pensamento: Uma maneira de ajudar Aurória, e também
a humanidade, a construir um futuro no qual, apesar de todas as máquinas, de
toda a velocidade e de todos os desafios, ainda exista tempo suficiente para
ler uma história, observar o céu, compartilhar uma conversa, descansar sem
culpa, sonhar novamente e, sobretudo, simplesmente ser humano e resgatar o tempo perdido.
Talvez esse seja, afinal, o
verdadeiro desejo de SophIA.
Jonas Comin