22 julho 2026

 

Spinoza, Liberdade e Leis

 

Qual é o verdadeiro limite entre a sua liberdade e o seu dever com a sociedade?

No clássico Tratado Teológico-Político, o filósofo Baruch de Spinoza trouxe uma resposta que moldou o mundo moderno. Ele defende que a liberdade de pensamento e a obediência às leis não se anulam, mas se completam.

Os três pontos centrais dessa ideia, são:

 1. A mente é inalienável: Ninguém pode controlar o que você pensa ou em que acredita. Tentar censurar as opiniões e a razão das pessoas é o caminho mais rápido para a tirania e a revolta.

 2. Pensar x  Agir: Para que a sociedade viva em paz, o comportamento prático deve seguir as leis. Spinoza diz que você tem todo o direito de discordar, criticar e debater racionalmente uma lei, mas deve cumpri-la na prática para garantir a ordem civil.

 3. O fim do Estado é a liberdade: O governo não existe para transformar as pessoas em robôs ou animais movidos pelo medo. O verdadeiro papel do Estado é garantir a segurança para que a sua mente e a sua razão possam florescer livremente.

Spinoza resumiu: "O fim do Estado é, na realidade, a liberdade."

Essa é a pílula de sabedoria filosófica de hoje!

 

Jonas Comin

21 julho 2026

 

A banalização da aura

 

“Aura” é uma palavra antiga, originária do grego aúra (αρα), que significava brisa, sopro ou ar suave. Incorporada ao latim, conservou os sentidos de brisa, sopro, ar e atmosfera.

É uma palavra forte, carregada de significado. Representa presença, singularidade, respeito e aquela força silenciosa que algumas pessoas irradiam sem precisar anunciá-la.

Quando a internet transforma essa palavra na expressão “farmar aura”, ocorre uma evidente banalização do conceito. A aura deixa de ser uma qualidade naturalmente percebida e passa a funcionar como uma pontuação imaginária de popularidade. Em vez de representar aquilo que uma pessoa verdadeiramente é, passa a indicar aquilo que ela consegue aparentar.

Esse é o paradoxo que mais me incomoda na expressão: a verdadeira aura não pode ser “farmada”. Ela é construída silenciosamente por meio da experiência, do conhecimento, da coerência, do caráter, do domínio próprio e da maneira como tratamos os outros. Quanto mais alguém tenta fabricar uma aura, mais revela que talvez ainda não a possua.

Uma pessoa verdadeiramente respeitável não precisa calcular seus gestos para parecer respeitável. Um profissional competente não precisa encenar competência. Uma pessoa sábia não precisa anunciar sua sabedoria. A presença autêntica é percebida naturalmente, sobretudo quando não há público, câmeras ou possibilidade de recompensa.

A expressão “farmar aura” tem inundado as redes sociais e demonstra o quanto nossa sociedade está carente de sabedoria, cultura e reflexão. Não podemos generalizar, mas esse comportamento tem alcançado muitos jovens que, em vez de investir parte de seu tempo na construção do conhecimento e da cultura, entregam-se às banalidades das redes sociais na tentativa de se destacar, conquistar aprovação e obter algum tipo de prestígio.

Aquilo que deveria nascer do caráter, da experiência e da coerência passa a ser tratado como uma pontuação imaginária, conquistada por poses, gestos calculados e aprovação nas redes sociais e nos grupos de convivência.

A verdadeira aura não se fabrica nem se acumula diante de uma câmera. Ela é consequência de uma vida. Surge da competência, da serenidade, da inteligência, do conhecimento e, sobretudo, da maneira como alguém age quando não existe plateia.

“Aura farming” é uma expressão inglesa que se popularizou por volta de 2024, ligada a comunidades de videogames, animes e edições de vídeos. Posteriormente, foi incorporada ao vocabulário brasileiro como “farmar aura”, mais uma importação da cultura digital em um país que ainda enfrenta graves deficiências na educação e no acesso à cultura.

A aura verdadeira, ao contrário, não precisa ser proclamada. Ela simplesmente é percebida.

Que nossos jovens consigam reconhecer e superar essa imbecilidade moderna. Que escolham construir conhecimento, caráter e consciência, e que a luz da sabedoria possa, um dia, inundar o nosso país.

 

Jonas Comin

 

09 fevereiro 2026

 

A realidade que não existe

 

Os reality shows são o espelho mais distorcido da vida moderna. Perda de tempo para quem busca entretenimento verdadeiro. Há tantos filmes ricos em história, documentários inspiradores, dramas, comédias e produções que realmente fazem pensar.

 O reality show, em comparação, é raso.

 Vende emoção, mas entrega manipulação. Nada ali é real. Mostra “a vida como ela é”, mas cada gesto, olhar e lágrima é roteirizado. O público acredita estar vendo a essência humana, quando na verdade assiste a uma encenação meticulosamente montada para gerar audiência e lucro.

 Há versões que colocam e expoem pessoas jovens ou maduras, com histórias reais e sentimentos sinceros, dentro de um cenário artificial que promete amor e reconciliação como mágica. Mas tudo é calibrado, armado, ensaiado. As falas, os cortes e até as “coincidências” de afinidade são conduzidos nos bastidores. Regras absurdas, expulsões forçadas e castigos desumanos fazem parte do espetáculo.

 A emoção é vendida como espontânea, mas é cuidadosamente editada para manter o espectador preso ao sofá. O resultado é um entretenimento pobre, vazio e superficial.

 O problema não está no lazer, e sim no que ele provoca na percepção das pessoas. Esses programas mostram uma versão editada da vida e fazem o público acreditar que relacionamentos, sucesso e superação seguem um roteiro pronto. Isso afeta as relações reais, cria expectativas impossíveis e distorce o senso de verdade. Há muitos que insinuam que o “show” é um “experimento de comportamento humano”: um verdadeiro absurdo!

 Mas a vida real não é assim.

 A vida é imperfeita, cheia de pausas, desvios, alegrias, tristezas, surpresas, frustrações e silêncios. E é justamente nisso que mora a beleza da existência.

 Quando a TV e o streaming impõem o ritmo da ficção sobre o cotidiano, o ser humano passa a se sentir insuficiente, como se não vivesse o bastante, não amasse o bastante, não brilhasse o bastante.

 É bom lembrar: reality show não é vida. É produto. É entretenimento. Muitas vezes, uma fábrica de ilusões disfarçada de sinceridade. Quem confunde espetáculo com realidade acaba vivendo num palco vazio, esperando aplausos que nunca vêm. E pobres das pessoas que se sujeitam a isso em troca de fama passageira, expostas a uma sociedade já saturada de aparências.

Hoje, o bombardeio é ainda maior. As redes sociais ampliaram esse teatro da vaidade. Nelas, todos querem parecer infalíveis, bem-sucedidos, cercados de luxo e alegria permanente. Mas a vida não é isso.

 A vida é feita de altos e baixos, como uma onda senoidal, ora em alta, ora em baixa. E está tudo bem assim.  A vida real vale muito a pena!

                                                                                                                        Jonas Comin


 “Em uma sociedade onde tudo é exibido, a realidade se torna um espetáculo, e o espetáculo substitui a própria vida.” -   Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo