11 outubro 2026

Espinosa: A absolvição do homem e do pensamento

Em 27 de julho de 1656, Baruch de Espinosa, então com apenas vinte e três anos, foi afastado da comunidade judaico-portuguesa de Amsterdã por meio de um herem, uma das formas mais severas de banimento religioso e social existentes naquela comunidade.


As razões exatas para a condenação não foram enumeradas no documento. O texto refere-se às suas “más opiniões”, às suas “heresias” e aquilo que ensinava.
 

Sabemos, entretanto, à luz da obra que Espinosa desenvolveria nos anos seguintes, que seu pensamento caminharia para uma concepção profundamente original de Deus, da Natureza, da liberdade humana, das Escrituras, da religião e do próprio lugar do homem no universo. Ideias que, naquele contexto histórico, entravam em confronto direto com princípios fundamentais da ortodoxia religiosa de sua comunidade. 

Em síntese, e em tradução abreviada, o herem proclamava:

 “Pela sentença dos anjos e pelo julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, amaldiçoamos e execramos Baruch de Espinosa.

Maldito seja de dia e maldito seja de noite. Maldito seja ao deitar-se e maldito seja ao levantar-se. Maldito seja ao sair e maldito seja ao entrar.

Que ninguém fale com ele, ninguém lhe escreva, ninguém lhe preste favor, ninguém permaneça sob o mesmo teto que ele e ninguém leia qualquer escrito de sua autoria.”

 Passaram-se séculos. 

Aquelas palavras permaneceram registradas pela história. Mas as ideias de Espinosa também permaneceram.

Foram lidas, discutidas, combatidas, reinterpretadas e transmitidas de geração em geração.

E talvez, depois de tanto tempo, possamos responder simbolicamente àquelas palavras. Não pela sentença dos anjos, nem pelo julgamento dos santos, mas pelo exercício livre da razão e pelo reconhecimento da dignidade daquele que ousou buscar uma compreensão própria da existência e procurou libertar o homem dos medos alimentados pela superstição, conduzindo-o à compreensão racional da Natureza e de sua própria existência. 

Poderíamos hoje, de maneira livre, madura e simbólica, revisitar aquele herem e conceder ao homem Espinosa e ao seu pensamento revolucionário uma nova redação. 

Afinal, embora séculos tenham se passado, o espírito humano, a liberdade de pensamento e a busca incessante da humanidade por respostas ainda se encontram com aquele pensamento que permanece inquietante e revolucionário. Um pensamento que procura libertar o homem do medo e conceber Deus não como algo distante ou separado da realidade, mas como a própria realidade infinita da qual tudo o que existe necessariamente participa. 

Assim, se hoje pudéssemos escrever uma revogação puramente simbólica daquele herem, talvez suas palavras fossem estas: 

Pela sentença dos anjos e pelo julgamento dos santos, que esse homem seja acolhido entre aqueles que procuram compreender Deus, a Natureza e o homem.

Que nenhuma comunidade do espírito expulse aquele que pergunta com sinceridade e procura, pela razão, compreender aquilo que ainda não compreende.

Que seja lembrado com respeito por ter escolhido pensar quando pensar livremente ainda podia ter um preço muito alto.

Que durante o dia suas ideias continuem sendo estudadas e que, durante a noite, ainda despertem perguntas naqueles que contemplam o mistério da existência.

Que, ao despertar, o homem tenha liberdade para pensar e que, ao repousar, não precise temer ter buscado a verdade segundo sua própria razão.

Bendito seja aquele que encontra coragem para sair dos limites impostos pelo medo e entrar nos territórios ainda desconhecidos do pensamento.

Disseram que ninguém deveria falar com Espinosa. 

No entanto, continuamos falando com ele. 

Disseram que ninguém deveria lhe escrever. 

Continuamos escrevendo sobre ele, contestando-o, estudando-o, interpretando-o e dialogando com suas ideias. 

Disseram que ninguém deveria ler seus escritos. 

E, no entanto, seus livros atravessaram os séculos e continuam abertos diante de todos aqueles que desejam confrontar suas próprias certezas. 

Talvez a própria história tenha respondido ao herem. Porque nenhuma ideia deveria ser julgada apenas pelo desconforto que provoca, mas pela capacidade que possui de resistir ao exame da razão.

Porque nenhuma maldição substitui um argumento. Porque nenhuma autoridade consegue impedir indefinidamente que uma pergunta seja formulada. E porque aquele que afirmou que Deus não está separado da Natureza, mas que tudo aquilo que existe existe em Deus e decorre necessariamente de sua natureza infinita, não procurou diminuir Deus. Procurou compreender o infinito sem reduzi-lo às paixões, aos desejos e às limitações humanas. 

Por isso, neste ato puramente simbólico, sem qualquer autoridade religiosa, jurídica ou institucional, podemos imaginar revogadas as palavras de condenação pronunciadas contra Baruch de Espinosa. 

Não porque todas as suas ideias devam ser aceitas.

Não porque sua filosofia esteja acima da crítica.

Não porque aqueles que o condenaram devam ser julgados fora das circunstâncias históricas em que viveram. 

Mas porque nenhuma busca sincera pelo conhecimento deveria transformar aquele que pensa em inimigo daqueles que creem de maneira diferente.

Que à expulsão se responda com diálogo, ao silêncio com leitura, à condenação com compreensão, à maldição com memória e ao medo com liberdade. 

E onde disseram: 

“Que ninguém se aproxime de Baruch de Espinosa”, 

podemos responder, trezentos e setenta anos depois: 

Aproxime-se.

Leia-o.

Concorde ou discorde.

Questione-o.

Questione também suas próprias certezas. 

Pense. 

E seja livre. 

Para mim, a humanidade já absolveu Espinosa há muito tempo.

 


 

Jonas Comin

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