09 fevereiro 2026

 

A realidade que não existe

 

Os reality shows são o espelho mais distorcido da vida moderna. Perda de tempo para quem busca entretenimento verdadeiro. Há tantos filmes ricos em história, documentários inspiradores, dramas, comédias e produções que realmente fazem pensar.

 O reality show, em comparação, é raso.

 Vende emoção, mas entrega manipulação. Nada ali é real. Mostra “a vida como ela é”, mas cada gesto, olhar e lágrima é roteirizado. O público acredita estar vendo a essência humana, quando na verdade assiste a uma encenação meticulosamente montada para gerar audiência e lucro.

 Há versões que colocam e expoem pessoas jovens ou maduras, com histórias reais e sentimentos sinceros, dentro de um cenário artificial que promete amor e reconciliação como mágica. Mas tudo é calibrado, armado, ensaiado. As falas, os cortes e até as “coincidências” de afinidade são conduzidos nos bastidores. Regras absurdas, expulsões forçadas e castigos desumanos fazem parte do espetáculo.

 A emoção é vendida como espontânea, mas é cuidadosamente editada para manter o espectador preso ao sofá. O resultado é um entretenimento pobre, vazio e superficial.

 O problema não está no lazer, e sim no que ele provoca na percepção das pessoas. Esses programas mostram uma versão editada da vida e fazem o público acreditar que relacionamentos, sucesso e superação seguem um roteiro pronto. Isso afeta as relações reais, cria expectativas impossíveis e distorce o senso de verdade. Há muitos que insinuam que o “show” é um “experimento de comportamento humano”: um verdadeiro absurdo!

 Mas a vida real não é assim.

 A vida é imperfeita, cheia de pausas, desvios, alegrias, tristezas, surpresas, frustrações e silêncios. E é justamente nisso que mora a beleza da existência.

 Quando a TV e o streaming impõem o ritmo da ficção sobre o cotidiano, o ser humano passa a se sentir insuficiente, como se não vivesse o bastante, não amasse o bastante, não brilhasse o bastante.

 É bom lembrar: reality show não é vida. É produto. É entretenimento. Muitas vezes, uma fábrica de ilusões disfarçada de sinceridade. Quem confunde espetáculo com realidade acaba vivendo num palco vazio, esperando aplausos que nunca vêm. E pobres das pessoas que se sujeitam a isso em troca de fama passageira, expostas a uma sociedade já saturada de aparências.

Hoje, o bombardeio é ainda maior. As redes sociais ampliaram esse teatro da vaidade. Nelas, todos querem parecer infalíveis, bem-sucedidos, cercados de luxo e alegria permanente. Mas a vida não é isso.

 A vida é feita de altos e baixos, como uma onda senoidal, ora em alta, ora em baixa. E está tudo bem assim.  A vida real vale muito a pena!

                                                                                                                        Jonas Comin


 “Em uma sociedade onde tudo é exibido, a realidade se torna um espetáculo, e o espetáculo substitui a própria vida.” -   Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo