A banalização da aura
“Aura”
é uma palavra antiga, originária do grego aúra (αὔρα),
que significava brisa, sopro ou ar suave. Incorporada ao latim, conservou os
sentidos de brisa, sopro, ar e atmosfera.
É
uma palavra forte, carregada de significado. Representa presença,
singularidade, respeito e aquela força silenciosa que algumas pessoas irradiam
sem precisar anunciá-la.
Quando
a internet transforma essa palavra na expressão “farmar aura”, ocorre uma
evidente banalização do conceito. A aura deixa de ser uma qualidade
naturalmente percebida e passa a funcionar como uma pontuação imaginária de
popularidade. Em vez de representar aquilo que uma pessoa verdadeiramente é,
passa a indicar aquilo que ela consegue aparentar.
Esse
é o paradoxo que mais me incomoda na expressão: a verdadeira aura não pode ser
“farmada”. Ela é construída silenciosamente por meio da experiência, do
conhecimento, da coerência, do caráter, do domínio próprio e da maneira como
tratamos os outros. Quanto mais alguém tenta fabricar uma aura, mais revela que
talvez ainda não a possua.
Uma
pessoa verdadeiramente respeitável não precisa calcular seus gestos para
parecer respeitável. Um profissional competente não precisa encenar
competência. Uma pessoa sábia não precisa anunciar sua sabedoria. A presença
autêntica é percebida naturalmente, sobretudo quando não há público, câmeras ou
possibilidade de recompensa.
A
expressão “farmar aura” tem inundado as redes sociais e demonstra o quanto
nossa sociedade está carente de sabedoria, cultura e reflexão. Não podemos
generalizar, mas esse comportamento tem alcançado muitos jovens que, em vez de
investir parte de seu tempo na construção do conhecimento e da cultura,
entregam-se às banalidades das redes sociais na tentativa de se destacar,
conquistar aprovação e obter algum tipo de prestígio.
Aquilo
que deveria nascer do caráter, da experiência e da coerência passa a ser
tratado como uma pontuação imaginária, conquistada por poses, gestos calculados
e aprovação nas redes sociais e nos grupos de convivência.
A
verdadeira aura não se fabrica nem se acumula diante de uma câmera. Ela é
consequência de uma vida. Surge da competência, da serenidade, da inteligência,
do conhecimento e, sobretudo, da maneira como alguém age quando não existe
plateia.
“Aura
farming” é uma expressão inglesa que se popularizou por volta de 2024, ligada a
comunidades de videogames, animes e edições de vídeos. Posteriormente, foi
incorporada ao vocabulário brasileiro como “farmar aura”, mais uma importação
da cultura digital em um país que ainda enfrenta graves deficiências na
educação e no acesso à cultura.
A
aura verdadeira, ao contrário, não precisa ser proclamada. Ela simplesmente é
percebida.
Que
nossos jovens consigam reconhecer e superar essa imbecilidade moderna. Que
escolham construir conhecimento, caráter e consciência, e que a luz da
sabedoria possa, um dia, inundar o nosso país.
Jonas Comin

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