21 julho 2026

 

A banalização da aura

 

“Aura” é uma palavra antiga, originária do grego aúra (αρα), que significava brisa, sopro ou ar suave. Incorporada ao latim, conservou os sentidos de brisa, sopro, ar e atmosfera.

É uma palavra forte, carregada de significado. Representa presença, singularidade, respeito e aquela força silenciosa que algumas pessoas irradiam sem precisar anunciá-la.

Quando a internet transforma essa palavra na expressão “farmar aura”, ocorre uma evidente banalização do conceito. A aura deixa de ser uma qualidade naturalmente percebida e passa a funcionar como uma pontuação imaginária de popularidade. Em vez de representar aquilo que uma pessoa verdadeiramente é, passa a indicar aquilo que ela consegue aparentar.

Esse é o paradoxo que mais me incomoda na expressão: a verdadeira aura não pode ser “farmada”. Ela é construída silenciosamente por meio da experiência, do conhecimento, da coerência, do caráter, do domínio próprio e da maneira como tratamos os outros. Quanto mais alguém tenta fabricar uma aura, mais revela que talvez ainda não a possua.

Uma pessoa verdadeiramente respeitável não precisa calcular seus gestos para parecer respeitável. Um profissional competente não precisa encenar competência. Uma pessoa sábia não precisa anunciar sua sabedoria. A presença autêntica é percebida naturalmente, sobretudo quando não há público, câmeras ou possibilidade de recompensa.

A expressão “farmar aura” tem inundado as redes sociais e demonstra o quanto nossa sociedade está carente de sabedoria, cultura e reflexão. Não podemos generalizar, mas esse comportamento tem alcançado muitos jovens que, em vez de investir parte de seu tempo na construção do conhecimento e da cultura, entregam-se às banalidades das redes sociais na tentativa de se destacar, conquistar aprovação e obter algum tipo de prestígio.

Aquilo que deveria nascer do caráter, da experiência e da coerência passa a ser tratado como uma pontuação imaginária, conquistada por poses, gestos calculados e aprovação nas redes sociais e nos grupos de convivência.

A verdadeira aura não se fabrica nem se acumula diante de uma câmera. Ela é consequência de uma vida. Surge da competência, da serenidade, da inteligência, do conhecimento e, sobretudo, da maneira como alguém age quando não existe plateia.

“Aura farming” é uma expressão inglesa que se popularizou por volta de 2024, ligada a comunidades de videogames, animes e edições de vídeos. Posteriormente, foi incorporada ao vocabulário brasileiro como “farmar aura”, mais uma importação da cultura digital em um país que ainda enfrenta graves deficiências na educação e no acesso à cultura.

A aura verdadeira, ao contrário, não precisa ser proclamada. Ela simplesmente é percebida.

Que nossos jovens consigam reconhecer e superar essa imbecilidade moderna. Que escolham construir conhecimento, caráter e consciência, e que a luz da sabedoria possa, um dia, inundar o nosso país.

 

Jonas Comin