Metanoia é uma palavra de origem grega que significa mudança de mente. Não no sentido raso de simplesmente mudar de ideia sobre algo, mas de transformar a forma de pensar, perceber e viver a vida. Trata-se de uma reorientação real, profunda, quase uma reforma estrutural no modo de enxergar o mundo e a si mesmo.
Percebo que estou em processo.
E esse processo não foi uma ruptura.
É algo mais
próximo de uma mudança silenciosa, como quem gira levemente o botão de ajuste
fino de um rádio de telecomunicações, buscando captar a mensagem com mais
clareza e menos ruído. Ou como o foco de uma lente que, após um pequeno ajuste,
permite enxergar melhor aquilo que sempre esteve ali.
Em algum ponto do
caminho, percebi que certas respostas já não sustentavam mais as perguntas que
eu carregava. E não foi a vida que ficou mais difícil. Foi o olhar que ficou
mais atento. O automático começou a incomodar. O raso perdeu o encanto. O
excesso de certezas passou a soar frágil. Coisas que antes passavam
despercebidas passaram a se impor diante de mim, quase como convites
inevitáveis à reflexão.
Passei a
desconfiar menos do mundo e mais das explicações fáceis que eu mesmo aceitava.
Como sempre fiz
desde a infância, voltei a buscar respostas. Apoiei-me em livros, em sábios, na
experiência humana acumulada por aqueles que, antes de nós, se depararam com
inquietações semelhantes e conseguiram expressá-las em palavras. Palavras que
atravessam o tempo e ainda hoje nos alcançam, oferecendo não soluções prontas,
mas companhia na busca.
Foi nesse percurso que encontrei uma palavra capaz de nomear
aquilo que, em silêncio, já vinha acontecendo em mim: metanoia. Não como
arrependimento no sentido moral, mas como mudança de mente, deslocamento de
eixo e reorientação interior da consciência.
A metanoia não me afastou da razão, da
fé ou da técnica. Pelo contrário, ela me obrigou a integrá-las. A deixar de
compartimentar o que penso, o que sinto e o que faço. A buscar coerência, não
perfeição.
Para quem convive
comigo, talvez isso esteja mais aparente. Menos pressa em responder. Mais
cuidado ao afirmar. Um silêncio que não representa afastamento, mas atenção.
Algumas conversas deixaram de acontecer. Outras tornaram-se mais profundas.
Nem sempre é confortável. Nem para
mim, nem para o outro.
O que busco, a partir da experiência de vida, é partilhar aquilo
que carrego no coração. Não como quem ensina, mas como quem oferece, com
respeito e disponibilidade. Talvez, assim, a vida de outras pessoas possa se
tornar mais leve e mais plena.
Entendo que, visto de fora, esse
processo possa ser interpretado como mudança, estranhamento ou até distância.
Mas, por dentro, ele é aproximação.
Aproximação de mim mesmo. Do
essencial. Daquilo que não precisa ser defendido com barulho.
Escrevo porque
pensar sozinho já não basta. Leio porque sei que não caminho só. Questiono
porque acredito que a fé, a razão e a própria vida só amadurecem quando são
atravessadas pela honestidade.
Este texto não é
um ponto de chegada. Com certeza não é. Ele é um registro de percurso. Um sinal
de que algo mudou e continua mudando.
Se isso ressoar em
quem lê, ótimo.
Se causar desconforto, tudo bem também.
Metanoia não pede concordância.
Pede atenção.
Pede calma.
Pede tempo.
Pede compreensão.
A metanoia é um
processo de tentativa. Tentativa de dar novo sentido, de se aproximar mais do
divino, de responder, ainda que apenas internamente, às questões que a vida nos
apresenta. Questões que, muito provavelmente, nos acompanharão até o fim. E das
quais partiremos sem todas as respostas.
A metanoia não
oferece respostas definitivas. Ela nos ensina a habitar as perguntas com mais
verdade.
E talvez seja essa a forma mais honesta de atravessar a vida.
Jonas Comin
