01 janeiro 2026


Metanoia

Metanoia é uma palavra de origem grega que significa mudança de mente. Não no sentido raso de simplesmente mudar de ideia sobre algo, mas de transformar a forma de pensar, perceber e viver a vida. Trata-se de uma reorientação real, profunda, quase uma reforma estrutural no modo de enxergar o mundo e a si mesmo.

Percebo que estou em processo.

E esse processo não foi uma ruptura.

É algo mais próximo de uma mudança silenciosa, como quem gira levemente o botão de ajuste fino de um rádio de telecomunicações, buscando captar a mensagem com mais clareza e menos ruído. Ou como o foco de uma lente que, após um pequeno ajuste, permite enxergar melhor aquilo que sempre esteve ali.

Em algum ponto do caminho, percebi que certas respostas já não sustentavam mais as perguntas que eu carregava. E não foi a vida que ficou mais difícil. Foi o olhar que ficou mais atento. O automático começou a incomodar. O raso perdeu o encanto. O excesso de certezas passou a soar frágil. Coisas que antes passavam despercebidas passaram a se impor diante de mim, quase como convites inevitáveis à reflexão.

Passei a desconfiar menos do mundo e mais das explicações fáceis que eu mesmo aceitava.

Como sempre fiz desde a infância, voltei a buscar respostas. Apoiei-me em livros, em sábios, na experiência humana acumulada por aqueles que, antes de nós, se depararam com inquietações semelhantes e conseguiram expressá-las em palavras. Palavras que atravessam o tempo e ainda hoje nos alcançam, oferecendo não soluções prontas, mas companhia na busca.

Foi nesse percurso que encontrei uma palavra capaz de nomear aquilo que, em silêncio, já vinha acontecendo em mim: metanoia. Não como arrependimento no sentido moral, mas como mudança de mente, deslocamento de eixo e reorientação interior da consciência.

A metanoia não me afastou da razão, da fé ou da técnica. Pelo contrário, ela me obrigou a integrá-las. A deixar de compartimentar o que penso, o que sinto e o que faço. A buscar coerência, não perfeição.

Para quem convive comigo, talvez isso esteja mais aparente. Menos pressa em responder. Mais cuidado ao afirmar. Um silêncio que não representa afastamento, mas atenção. Algumas conversas deixaram de acontecer. Outras tornaram-se mais profundas.

Nem sempre é confortável. Nem para mim, nem para o outro.

O que busco, a partir da experiência de vida, é partilhar aquilo que carrego no coração. Não como quem ensina, mas como quem oferece, com respeito e disponibilidade. Talvez, assim, a vida de outras pessoas possa se tornar mais leve e mais plena.

Entendo que, visto de fora, esse processo possa ser interpretado como mudança, estranhamento ou até distância. Mas, por dentro, ele é aproximação.

Aproximação de mim mesmo. Do essencial. Daquilo que não precisa ser defendido com barulho.

Escrevo porque pensar sozinho já não basta. Leio porque sei que não caminho só. Questiono porque acredito que a fé, a razão e a própria vida só amadurecem quando são atravessadas pela honestidade.

Este texto não é um ponto de chegada. Com certeza não é. Ele é um registro de percurso. Um sinal de que algo mudou e continua mudando.

Se isso ressoar em quem lê, ótimo.

Se causar desconforto, tudo bem também.

Metanoia não pede concordância.

Pede atenção.
Pede calma.
Pede tempo.
Pede compreensão.

A metanoia é um processo de tentativa. Tentativa de dar novo sentido, de se aproximar mais do divino, de responder, ainda que apenas internamente, às questões que a vida nos apresenta. Questões que, muito provavelmente, nos acompanharão até o fim. E das quais partiremos sem todas as respostas.

A metanoia não oferece respostas definitivas. Ela nos ensina a habitar as perguntas com mais verdade.


E talvez seja essa a forma mais honesta de atravessar a vida.

 

Jonas Comin